Cronistas do Diário: "Caro prefeito Pozzobom,", por Marcelo Canellas - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião06/11/2016 | 16h28Atualizada em 06/11/2016 | 16h28

Cronistas do Diário: "Caro prefeito Pozzobom,", por Marcelo Canellas

Cronistas do Diário: "Caro prefeito Pozzobom,", por Marcelo Canellas Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Antes de mais nada, meus parabéns pela eleição. Não deve ter sido fácil enfrentar um adversário tão forte quanto Valdeci Oliveira, cujo prestígio pessoal, a despeito do desgaste monstruoso do partido dele, manteve a disputa aberta até a última urna apurada. Mas o fato é que a vitória é sua, e mesmo essa diferença minúscula de 226 votos pode trazer um benefício imenso: o de lhe deixar com os pés no chão. A soberba é péssima companhia para os políticos. Apostando na sua sabedoria, e na lição de humildade que o senhor pode ter tirado desse episódio, escrevo para lhe oferecer um singelo conselho: não esconda a maior dor de nossa cidade, não finja que ela não existe. Enfrente-a.

Explico melhor. Ando muito por esse mundão. E em toda a parte, no Brasil ou no estrangeiro, quando digo que sou de Santa Maria, todos fazem a mesma pergunta: o que foi feito da boate Kiss? Nossa cidade se tornou tristemente conhecida. E não poderia ter sido de outra maneira, dada a magnitude da tragédia. O que posso responder? Que a boate está lá do mesmo jeito, fechada com tapumes, enquanto o processo se arrasta na Justiça. Acontece, prefeito Pozzobom, que nós, santa-marienses, já poderíamos ter outra resposta para dar. É aí, acredito, que o senhor entra. Isto é, se o senhor desejar ser lembrado como um prefeito com postura de estadista e não como mais um político medíocre que passou pela prefeitura.

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Permita-me a ousadia de lhe dar o caminho das pedras: no dia seguinte ao da sua posse, chame ao seu gabinete as entidades que representam as famílias das vítimas e todos os parentes e sobreviventes que puder convidar. E, então, seja solidário com eles, e peça desculpas pelo pouco que foi feito até agora. Eu sei que o senhor não tem culpa nenhuma. Mas a prefeitura tem, e o senhor estará representando um poder que deveria estar na vanguarda de um duro e penoso processo de ressignificação da tragédia. Isso só é possível com medidas que tenham, ao mesmo tempo, força simbólica e efeito prático.

A primeira e mais urgente de todas: não basta declarar o prédio da boate Kiss como sendo de utilidade pública. Desaproprie-o. E anuncie a construção de um Memorial no lugar. Mas não faça uma ação entre amigos, não convide um artista de sua predileção. Nada disso. Faça algo à altura da nossa necessidade de purgar as dores do trauma. Proponha um concurso internacional, arbitrado por uma entidade isenta, como o Instituto dos Arquitetos do Brasil. É fundamental que as famílias das vítimas participem ativamente disso, porque serão elas a municiar o Memorial com os objetos e histórias de vida de seus filhos. O Memorial da Tragédia de Santa Maria terá de ser um museu de histórias de vida, e não de morte. Pense nisso. Está em suas mãos a oportunidade de entrar para a história como o prefeito que fez de nossa amada cidade um exemplo mundial de respeito à memória e de superação.

 
 

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