Cronistas do Diário: "Brincadeirinha! Mas nem tanto", por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião11/11/2016 | 06h59Atualizada em 11/11/2016 | 06h59

Cronistas do Diário: "Brincadeirinha! Mas nem tanto", por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: "Brincadeirinha! Mas nem tanto", por Jumaida Rosito Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Foi uma festa no campo, com o encontro de amigos de longa data, ao fim de uma tarde perfeita de domingo. Até o vento soprava devagar, respeitando os vestidos e os cabelos das mulheres, arrumadas com cuidado, em homenagem à aniversariante. Vieram pessoas de todas as idades. Senhorinhas de cabelos brancos ajudavam umas às outras a caminhar pela grama recém-cortada. Uma terceira geração de bebês provocava saudade nas mães de filhos crescidos. Jovens casais de namorados invocavam ternas lembranças, e os pares maduros eram inspiradores, como a paisagem à volta. Os cachorros campeiros, com focinhos ralados pelas aventuras mato adentro, circulavam livremente entre os convidados – mais uma prova evidente da generosidade dos donos da casa. As visitas eram recebidas com delícias carameladas, bebidas na temperatura certa e frases de acolhimento. A maioria preferia circular pela propriedade, revezando-se em grupos de bate-papo, e, de vez em quando, alguém aproveitava a moldura das buganvílias para uma daquelas fotografias de ficar para sempre.

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Um casal convidado e uma das anfitriãs da tarde achegaram-se para uma daquelas conversas de matar saudades, aproveitando já a descontração do fim de festa. As mulheres conheciam-se há décadas, e mantinham a afinidade apurada pelo compartilhamento de grandes alegrias e inevitáveis tristezas. Preparando a despedida, por essas delicadezas que se usam no ritual das partidas, a convidada considerou que precisavam ir antes que escurecesse, pois a estrada rural pedia cuidado, e a distância até a cidade era longa. Seu companheiro, no entanto, confortável onde estava e pouco atento à etiqueta do adeus, tomou o comentário ao pé da letra e disparou: ¿Mas que bobagem! A estrada está ótima¿. As duas amigas olharam-se num repente e riram com cumplicidade. Elas haviam acalentado, por anos, um projeto maluco de escrever, a quatro mãos, ¿O grande livro das indelicadezas¿, que versaria sobre os homens e sua descuidada rudeza no trato com o feminino. Era uma bobagem, uma forma que encontraram para distensionar seus respectivos relacionamentos. Ao confidenciarem uma à outra os deslizes dos ogros desatentos com quem conviviam, curavam as animosidades com risos, enquanto acrescentavam um novo capítulo a sua obra virtual. Diante do homem que as observava confuso, traduziram o momento, com bom humor: ¿Não se fala – que bobagem! – para uma menina¿. Que tal se ouvíssemos: ¿Não se preocupe, meu amor, eu dirijo com cuidado¿, ou ¿vou na frente para mostrar o melhor caminho¿. ¿Aposto que a festa continuaria em casa¿, ponderou a anfitriã com carinho, dando o tom certo à brincadeira. As piadas sobre a guerra dos sexos encerraram o assunto com leveza. Mas, na despedida, as mulheres ainda trocaram um último olhar divertido, de parceria e condescendência, porque sabiam que, no fundo, no fundo, era tudo verdade.

 
 

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