Cronistas do Diário: "As coisas que o dinheiro não compra", por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião04/11/2016 | 07h14Atualizada em 04/11/2016 | 08h11

Cronistas do Diário: "As coisas que o dinheiro não compra", por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: "As coisas que o dinheiro não compra", por Jumaida Rosito Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Eu tenho um filho que é uma pessoa muito bem-sucedida. Como sou suspeita, e esse conceito é bastante flexível, faço algumas considerações. Ele está na universidade, mas não se prepara para uma daquelas profissões que, classicamente, atraem glamour; quer ser um professor! Já esteve um pouco inseguro com o curso, mas ganhou vida nova quando entrou pela primeira vez numa sala de aula, como estagiário; suas luzes se acendem sempre que fala nos alunos. Meu filho é um vocacionado, e se seguir a carreira, vai fazer a diferença na vida de muita gente; torço por isso.

Ele convive minimamente com a tecnologia; não anda plugado nem conectado 24 horas por dia. Sua fissura é por livros e filmes antigos. Com os primeiros, mantém uma relação de curador ciumento. Mas com os filmes, sua emoção vem à tona. É daquele tipo que termina a história com uma ruga na testa se alguma coisa não lhe agradou na trama, e se entrega para valer.

Ele não tem o aspecto nem a atitude de alguém da sua idade; é do tipo "esquisitão". Quieto, com dificuldade de socialização, anda quase sempre só; ainda não encontrou as pessoas certas. Mas com a resiliência de um salgueiro, se ignorado ou destratado, não se abate, não revida, nem lhe passa pela cabeça cultivar rancor. E olha que essas coisas acontecem com certa frequência, em lojas, na própria família, na universidade – sim, na universidade! A intolerância, caros amigos, atravessa o arco da Avenida Roraima e senta-se nos bancos da academia; basta alguém ser diferente.

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Um filho amoroso, não tem planos de conquistar o mundo, e seu sonho maior é morar numa pequena cidade, com uma biblioteca recheada de preciosidades e onde todos se conheçam. Por insegurança, as rotinas lhe dão conforto. Todo sábado, por exemplo, vai ao centro da cidade. O seu prazer maior é visitar livrarias. Das primeiras vezes, foi considerado com desconfiança pelos funcionários (um esquisitão desajeitado confunde-se com um meliante nervoso!), mas agora já é de casa. Depois disso, aproveita as atrações das praças, elogia os artistas de rua e almoça por lá mesmo, saboreando independência.

Certo dia, sugeri um novo restaurante; um local simples, do jeito dele. Na volta, me disse, aflito: "Mãe! Eu não consigo comer direito com aquelas fotografias nas paredes!". As paredes do restaurante, decoradas com cenas de grandes pescarias e caçadas, feriram a alma incomum do meu esquisitão. Ele não entende como abater animais pode ser considerado um esporte, ou como podem as pessoas eternizar esses momentos, com orgulho. Eu o abracei e sorri; com certeza, nós dois não voltaremos mais lá!

Acho que, com tudo isso, já posso justificar minha primeira frase, lá do começo. Podemos dar a melhor educação do mundo a um filho, orientá-lo a ser honesto, culto e próspero, mas, para mim, sucesso, sucesso mesmo é descobrir que ele tem uma alma simples e nobre, porque isso não se compra nem se forja. Esse meu filho é, sem dúvida, um ser humano muito bem-sucedido.

 
 

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