Cronistas do Diário: "A prova", por Orlando Fonseca - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião29/11/2016 | 09h53Atualizada em 29/11/2016 | 09h53

Cronistas do Diário: "A prova", por Orlando Fonseca

Cronistas do Diário: "A prova", por Orlando Fonseca Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Tinha realizado a prova, afastou a folha e se debruçou sobre a classe. A única certeza é que não pegaria exame, embora não tivesse estudado nada. Não deixou nenhuma em branco. Vieram à mente as cenas que o aguardavam logo ali, na virada do ano. Um mês inteiro na praia era a promessa dos pais se conseguisse a façanha – quase impossível – de não pegar exame. Dias de não fazer nada na avenida beira-mar, banhos refrigerantes nas águas do Atlântico, a azaração nas noites quentes. Era um sonho.

Foi quando bateram à porta da sala de aula, e a professora foi atender. Ouviu, alto e bom som, quando ela concordou que o Rodrigo era seu aluno e estava presente. Viu a cara do diretor e, em seguida, adentraram, solenes e carrancudos, dois policiais federais – estavam vestidos de preto e portavam Ray-bans escuros. Não tinha como desconhecer, pois vira en passant, diversas vezes nos telejornais, que os pais assistiam atentos, e ele nem aí. Eram eles e, depois de serem orientados pela professora, dirigiram-se, para espanto geral da sala, a sua mesa. Estava de boca aberta e, pela sua mente, passaram todas as possibilidades de estar implicado em alguma coisa. Ficou ainda mais espantado quando se deu conta que sim. Ia se virar para o lado e se socorrer com o Geraldinho, mas este havia faltado à prova. Foi, então, que um dos dois pediu que ele se levantasse e os seguisse, pois era suspeito da Lava-Jato.

– Eu???

– Quem mais garoto?

Rodrigo ia começar a falar, mas o policial com cara de japonês o interrompeu, dizendo.

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– Delação premiada só diante do juiz. Vamos pra Curitiba – e ainda passou a mão sobre a classe, de onde pegou as folhas da prova, examinando com cuidado, guardando-as no bolso do colete.

Enquanto era algemado, tentava argumentar:

– Mas o que é que eu fiz? Por que vocês não vão pegar aqueles bandidos, ladrões sem-vergonha que estão lá em Brasília? Tá cheio de corrupto por aí, e vocês vêm atrás de um cara inocente que nem eu?

Ao que um dos policiais retruca:

– Inocente, você? E, para teu governo – ainda olhando em torno da sala –, e de todos vocês, aqueles corruptos que estão presos, que estão em julgamento ou sob suspeita, todos começaram assim – e pegou as folhas do bolso do colega –, colando nas provas. Agora, vai fazer companhia para o coleguinha Geraldo, que te entregou na delação premiada.

Olhando mais uma vez pela sala, recomendou

– E aguardem, porque este aqui também vai abrir o bico.        

E saíram batendo a porta com força. 

Foi quando, num sobressalto, o Rodrigo despertou do pesadelo, e até tinha babado nas folhas sobre a classe.

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