Cronistas do Diário: "Uma mulher solteira", por Tatiana Py Dutra  - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião25/10/2016 | 07h02Atualizada em 25/10/2016 | 07h03

Cronistas do Diário: "Uma mulher solteira", por Tatiana Py Dutra 

Cronistas do Diário: "Uma mulher solteira", por Tatiana Py Dutra  Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

"E os namorados?" Essa pergunta sempre me deixou constrangida. Mas o poder desse questionamento aumentou conforme fui atravessando, com vida, minhas quatro décadas. A resposta ainda é: não tenho.

Confesso que sinto uma certa pressão social. Não apenas pelo estado civil ser o mesmo desde o dia em que nasci, mas porque também não tenho filhos. Uma mulher de 40 anos solteira e sem filhos? Deve haver algo errado com ela, não? As mulheres queimaram sutiãs nos anos 60 do século passado, e a gente ainda ouve: "Mas vai ficar para titia?". Já fiquei.

Professor de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Cláudio Rabelo apresentou-me, dia desses, ao "biopoder". Cunhado por Michael Foucault, o termo designa um mecanismo de controle justificado pela ênfase na proteção de vida e na regulação do corpo, protegendo outros setores. "Os biopoderes se ocuparão, então, da gestão da saúde, da higiene, da alimentação, da sexualidade, da natalidade, dos costumes, etc., na medida em que esses se tornaram preocupações políticas". A elevação da maternidade ao patamar de propósito final da existência feminina – mesmo num planeta superpopuloso – é um exemplo de biopoder.

Se a teoria é feia, a realidade é ainda pior. Algumas mulheres podem desenvolver quadros de ansiedade e depressão devido às cobranças externas e até mesmo à autocobrança. 

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"As mulheres sentem-se pressionadas em atender a expectativas da sociedade, que intitulou que, aos 30 anos, elas devem estar casadas, planejando ter filhos e com a carreira construída", escreveu a psicóloga Cynthia Boscovich em artigo para o site Vix. 

Nós, mulheres, somos condicionadas a ter uma visão um pouco excludente da felicidade e, por mais que a sociedade evolua, os velhos chavões estão por toda parte. No final feliz de filmes e novelas, e até mesmo na tal Escola de Princesas, que ensina meninas que a vida é se preparar para conseguir um bom partido. Belas, recatadas e do lar.

A grande armadilha, avalio, é superdimensionar a frustração de não ter alcançado um objetivo (seja ele real ou condicionado) sem enxergar o valor das vitórias conquistadas. Profissionalmente realizada, viajada, instruída – sem hora para sair ou voltar. Vejo vantagem nisso. Todo dia pode ser sexta-feira para quem é solteiro. O casamento e a maternidade vão ter que esperar.

Com essa crônica, eu me despeço dos leitores, já que o titular da coluna volta na semana que vem. Agradeço a vocês pela acolhida carinhosa. Até a próxima! Fim da conversa no bate-papo.

 
 

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