Cronistas do Diário: Uma mulher gorda, por Tatiana Py Dutra - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião18/10/2016 | 06h44Atualizada em 20/10/2016 | 21h32

Cronistas do Diário: Uma mulher gorda, por Tatiana Py Dutra

Cronistas do Diário: Uma mulher gorda, por Tatiana Py Dutra Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Oficialmente, hoje é meu primeiro dia como cronista. O cargo é interino, e não quero causar constrangimento ao titular, pessoa experiente e culta. Eu sempre digo que "adoro dar palpite", mas uma coluna de jornal não me permite lugares comuns. Então, nesta e na próxima semana, vou falar de um assunto que domino: eu.

Sem egocentrismo. Creio que algum leitor poderá se identificar com alguma experiência ou pensamento que eu possa compartilhar. Apresentada a ideia, vamos lá. Eu sou gorda. Sempre fui. Nasci com mais de quatro quilos e, na infância, fui daquela aparência fofinha até a obesidade. Minha vida escolar não foi lá muito divertida. "Rolha de poço", "orca", "hipopótamo", "pão com banha". Lembro de um colega da 6ª série que, após esgotar sua coleção de insultos contra a minha aparência, gritou: "Nebulosa!". Tive de ir ao dicionário para entender o que era aquele xingamento.

Hoje, fala-se muito em bullying, mas essa palavra não existia nos anos 80; e, se hoje muitos pais e mestres ainda não entendem a importância de proteger as crianças desse tipo de perseguição, quando eu estava no colégio, a orientação que me davam – sempre que me encontravam às lágrimas – era "deixa isso para lá", "tu és melhor que eles". Eu não me sentia assim.

Cresci. Apesar das dietas e intervenções, ainda estou acima do peso. E, se hoje não me berram impropérios por causa do meu corpo avantajado, vejo a zombaria em outros locais. Nas lojas, por exemplo. Em muitas, encontrar peças acima do manequim 42 é como encontrar um tesouro de um pirata. Algumas vendedoras também não têm muito tato: "Quem sabe um maiô?", respondeu-me a moça quando eu pedi um biquíni.

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Eis o efeito mais doloroso dos "quilinhos a mais": o policiamento social de um corpo que não se enquadra no padrão. O desprezo pela gordinha de roupa justa, vestindo branco ou usando listras horizontais. O acinte da gordinha que gosta de comer. Sim, admito. O Brasil tem 18 milhões de obesos que, somados aos que estão acima do peso, passam de 70 milhões. A obesidade está associada a doenças cardiovasculares, diabetes e hipertensão. Mas não se pode concluir o estilo de vida de uma pessoa baseando-se unicamente no seu corpo, ou deduzir sua condição de saúde pela aparência.

E nem é da saúde do gordo que estou falando. É da sociedade, que atribui ao gordo características como preguiça, desorganização ou baixa inteligência. Em 2007, o executivo de uma grife americana disse que garotos "não legais" e "mulheres gordas" não deveriam usar a marca. Em 2011, cinco professoras aprovadas em concurso não puderam entrar para o funcionalismo paulista devido à obesidade. A justificativa: falta de saúde. É má-fé disfarçada de preocupação de tentar enquadrar uma pessoa num padrão.

A maioria das mulheres não gosta de si. O cabelo é da cor errada, a cintura é do tamanho errado, a pele... É extremamente difícil ser gorda em meio ao culto dos corpos magros. Deixem-nos em paz!


 
 

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