Cronistas do Diário: Uma mulher e três crianças, por Hugo Fontana - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião17/10/2016 | 20h38Atualizada em 20/10/2016 | 21h55

Cronistas do Diário: Uma mulher e três crianças, por Hugo Fontana

Cronistas do Diário: Uma mulher e três crianças, por Hugo Fontana Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Faz um bom tempo. Meus filhos eram pequenos, e eu mantinha o hábito de comprar verduras, legumes e frutas em uma fruteira que já não existe, na Faixa Velha de Camobi. Um dia, enquanto colocava as sacolas na minha reluzente Brasília, fiquei observando uma mulher maltrapilha, com três crianças a tiracolo, entrando na fruteira. Gastou o pouco que tinha em balas, salgadinhos e refrigerantes dados com alegria aos três rebentos. Pareciam felizes ao desaparecerem bebendo em latas de refrigerante por uma estrada de terra que margeava a Faixa Velha.

Meu primeiro impulso – de branco, empregado, preconceituoso e metido a sebo – foi pensar na irresponsabilidade de uma mãe que gasta seu ralo dinheiro de forma tão inconsequente. Logo o desfiz. Os apelos de consumo equivocado parecem não escolher classe social. O refrigerante é emblemático. De forma particularíssima, os dois mais consumidos no globo terrestre. Mesmo pagando milhões para esconder seu vínculo com a obesidade, Coca e Pepsi estão sob fogo cruzado. Nos Estados Unidos, universidades, associações científicas e órgãos públicos recebem vultuosas quantias de dinheiro dos fabricantes de refrigerantes. E no Brasil?

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Todos sabem que o mundo sofre uma epidemia de obesidade, e o consumo de bebidas açucaradas têm implicação direta com isso. Uma lata de refrigerante (vale lembrar) contém, em média, 45 gramas de açúcar. Bem mais do que os 25 gramas recomendamos como dose diária máxima pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Daqui a não muito tempo, tal como nos maços de cigarro, as embalagens de refrigerantes conterão advertências sobre os males à saúde advindos do seu consumo.

Hoje, parte do nosso país está falando na chamada "reforma do Ensino Médio". Como de costume, uma escamoteada do governo, a qual pretende colocar goela a baixo, sua pretensa preocupação com a qualidade de ensino. Escola de tempo integral, por exemplo, só tem sentido se acompanhada de infraestrutura adequada, professores preparados, salários atrativos e priorização de todos os níveis de ensino, da pré-escola à pós-graduação. Todo o resto soa como falta de política, num país que (ironia trágica) parece ter prazer em rejeitá-la!

Uma política de educação, sem demagogia, com início, meio e fim para os próximos 50 anos, entre outras tantas coisas, além de redirecionar o consumo, nos tornaria menos obesos, menos diabéticos... menos céticos e ignorantes. Talvez até nos curasse de vez do nosso histórico analfabetismo político.


 
 

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