Cronistas do Diário: "Um jeito de editar a vida", por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião28/10/2016 | 07h12Atualizada em 28/10/2016 | 07h12

Cronistas do Diário: "Um jeito de editar a vida", por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: "Um jeito de editar a vida", por Jumaida Rosito Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Existem coisas que só me acontecem durante viagens de carona numa motocicleta. Sem as parafernálias eletrônicas nos capacetes, ficam inviabilizadas as conversas e qualquer outro tipo de comunicação humana, como músicas e notícias. Isso me dá a oportunidade de ficar sozinha comigo mesma. Uma raridade. Eu começo essas aventuras por uma espécie de ritual de entrega. Sou uma controladora incorrigível, mas, na condição de caroneira, controlo coisa alguma! Faço uma oração cristã, recito um mantra oriental, invoco as entidades que limpam caminhos e me coloco nas mãos do meu piloto e do destino. Aqueles com uma fé religiosa inabalável sabem como me sinto; entregar-se assim é voltar a ser uma criança confiante. No momento seguinte, eu me concentro na natureza. Como num filme hiper-realista, vejo, sinto cheiros, percebo o calor e o carinho do ventos, mas o único som parece vir dos meus diálogos internos, vozes enlouquecidas por tanta liberdade. Vencemos distâncias enquanto minha mente vai jogando fora todo o lixo acumulado; descobri que essa prática se chama meditação ambulante e que as dores do corpo são nada em troca do que recebo.

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Há poucos dias, vivi uma dessas oportunidades, e um carrossel de emoções contraditórias. As coxilhas do nordeste do Estado estavam uma pintura, revestidas por aveia, trigo de cores diversas e pequenas porções de milho. Mas não pude deixar de me afligir pela vegetação nativa, acuada, empurrada para a beira das estradas em pequenas nesgas. Exatamente nessa faixa, observei a gloriosa florada das marias-moles, bordando de amarelo as margens das rodovias no tom exato das placas de sinalização. Então, me ocorreu que, apesar de tamanha beleza, elas carregam a sina de plantas tóxicas, indesejadas nas pastagens produtivas, eliminadas sempre que possível. Muitas vezes, voltei os olhos aos céus, ora preocupada, ora agradecida, porque a ameaça de chuva nos rondou com sua sombra. Outras vezes, afastei o olhar da estrada, onde jaziam animais abatidos, tristemente abandonados. Talvez, fosse esse sentimento, de comoção, a me acompanhar na chegada, não fosse a visão das cartucheiras em flor, debruçadas sobre os caminhos da volta por Itaara; compressas mornas no coração! Pouco antes de chegar em casa, ainda em meu trono privilegiado de observar o mundo, invoquei os lembretes que colhi pela estrada: o feio e o bonito, a tristeza e a alegria, o necessário e o fútil, o previsível e o inesperado, alternam-se na vida. Não há como viver sem sensibilizar a película cinematográfica acomodada em nossas almas (acho que ela jamais será digital). Então, de vez em quando, e cada um de seu jeito, precisamos jogar fora o rolo desgastado, editar os melhores momentos e aproveitar o espetáculo. Eu faço isso nessas viagens de motocicleta.

 
 

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