Cronistas do Diário: "Sinopse para um um filme brasileiro", Marcelo Canellas - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião29/10/2016 | 07h00Atualizada em 29/10/2016 | 07h00

Cronistas do Diário: "Sinopse para um um filme brasileiro", Marcelo Canellas

Cronistas do Diário: "Sinopse para um um filme brasileiro", Marcelo Canellas Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Larissa nasceu arroxeada, numa noite fria de inverno, no chão batido de um barraco da Vila União, bairro pobre de Xanxerê, no oeste catarinense. O cordão umbilical, enrolado no pescocinho, foi partido com uma faca de cozinha pela mãe, que deu à luz sozinha e, por puro impulso instintivo, libertou o ar que salvou a filha da morte por asfixia. O primeiro berço foi uma caixa de papelão forrada com jornais. Ao lado da mãe, desfalecida de exaustão, Larissa dormiu a sono solto na primeira noite de sua vida. Uma aventura, ela diz, ao me contar a história do parto que lhe trouxe ao mundo: 

– E não haveria de ser guerreira quem já chega batalhando para viver?De todas as guerras que enfrentou, a pior foi contra o padrasto. Larissa tinha 12 anos e, cansada de ser molestada e assediada por ele, perdeu a vergonha e denunciou o que se passava. Mas a mãe preferiu acreditar no marido, que negou tudo. Então, para não ser estuprada dentro de sua própria casa, Larissa fugiu, deixando para trás a mãe e seus oito irmãos. 

A oportunidade apareceu quando duas garotas mais velhas, de 15 anos, a convidaram para tentar a vida em Blumenau. Disseram que poderia trabalhar como babá em casa de gente rica. E a guerreira partiu com a turma, na boleia de um caminhão, para o Vale do Itajaí. 

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– Acha que acabou? – ri à larga, antes de narrar o enredo de uma outra guerra, cujo campo de batalha eram os corredores de um casarão de má fama. O endereço que suas amigas adolescentes tinham como destino era o de um bordel. Quando a cafetina olhou para aquela guria magricela, franziu o cenho:

– Quantos anos tens, minha filha?

– Quinze – mentiu. E foi levada para os aposentos do fundo, longe do furdunço, até que a dona do estabelecimento decidisse o que fazer com uma hóspede tão nova e inapta para o ofício. Em troca de um prato de comida, fazia o serviço de limpeza, faxina e arrumação. Dias depois, gritou de desespero ao notar sangue escorrendo entre as pernas. A cafetina lhe explicou, cheia de satisfação: acabara de ficar mocinha. Larissa logo percebeu que era hora de fugir. Um dos clientes de uma de suas amigas escondeu Larissa na casa da irmã, que logo simpatizou com a garota esperta e prestativa.

– Pra contrabalançar a penca de gente ruim, a vida às vezes nos dá anjos! – me explica, contando que pôde estudar e concluir o Ensino Médio à noite, enquanto trabalhava como empregada doméstica durante o dia. Agora, Larissa quer estudar Pedagogia. Quando explico que sou cronista, ela quer saber: 

– Minha vida não dá uma crônica?

Dá, claro. Acabou de dar. Mas dá mais. Se um dia eu quiser fazer um filme sobre o Brasil profundo, já tenho a sinopse nesta página de jornal.

 
 

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