Cronistas do Diário: Procure o bode certo!, por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião07/10/2016 | 07h15Atualizada em 07/10/2016 | 07h15

Cronistas do Diário: Procure o bode certo!, por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: Procure o bode certo!, por Jumaida Rosito Arte DSM/
Foto: Arte DSM

A mulher, entre seus 45 anos, chegou apressada ao consultório médico, acompanhada pela mãe. Poliqueixosa e inquieta, iniciou, sem rodeios, um relato sofrido de sua busca pela cura de males, que variavam da taquicardia a episódios recorrentes de terçol. Curiosamente, observou o doutor, ela parecia não se dar conta de seu único sintoma evidente, a logorreia, falação compulsiva que é parente da ansiedade disparada.

Convencido da indissociabilidade entre os achaques do corpo e da alma, ele avaliava o oculto nas palavras afobadas e nas informações desconexas. Foi, então, que reparou na mãe de sua nova paciente. Sentada em uma poltrona mais afastada, parecia o oposto da outra; dona de uma humildade resignada, não reagia às grosserias da filha a cada manifestação sua. Quantas vezes o médico havia testemunhado indelicadezas assim. Na hora da aflição do corpo, a alma se desnuda; algumas pessoas esquecem os filtros da gentileza, em especial, para com os de sua convivência mais íntima, expondo uma rudeza feia de se ver. Há três décadas cuidando de gente suscetível, ele não espera por reconhecimento ou gratidão, mas ainda fica incomodado com o destrato de uns para com os outros, bem diante do seu nariz e no seu território.

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Pelo que pôde observar, a senhora mais velha não trazia nos olhos a apatia dos incapazes. "Ela escolheu um papel secundário", pensou, "como fazem algumas mães de filhos limitados; apagam suas luzes para que eles possam brilhar". Continuou a ouvir a lista considerável de reclamações, até o repentino e surpreendente autodiagnóstico – a paciente atribuía a si um estresse crônico e debilitante, assoberbada que estava pelos cuidados com a mãe. Aproveitando a brecha, o doutor perguntou se ela morava só. "Não! moro na casa da minha mãe", respondeu a queixosa, que estava fora do mercado de trabalho naquele momento. "E quem é responsável pela rotina do lar, como limpeza, cuidados com a sua roupa e alimentação?", "minha mãe", a réplica veio rápida, antes que ela percebesse a intenção da conversa. Sem perder a oportunidade, o doutor arrematou: "Então, não entendi; afinal, quem cuida de quem mesmo?". Um tom de brincadeira amenizou a tensão do momento, mas ele saboreou a incontestabilidade de sua lógica. Desejou prescrever uma ou duas pílulas emergenciais de autocrítica e drágeas de consideração, mas conteve-se, obviamente. Os problemas médicos seriam resolvidos com seus cuidados, mas caberia a ela encontrar outro bode expiatório para as mazelas da vida.

 
 

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