Cronistas do Diário: Os Veríssimo, por Marcelo Canellas - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião15/10/2016 | 07h03Atualizada em 20/10/2016 | 21h56

Cronistas do Diário: Os Veríssimo, por Marcelo Canellas

Cronistas do Diário: Os Veríssimo, por Marcelo Canellas Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Quase não acreditei quando, passando os olhos na minha velha coleção das obras completas de Erico Veríssimo, e relendo as notas biográficas de um de seus livros, me dei conta de que ele faria 111 anos no mês que vem. Ou seja, já tem 11 anos que o centenário dele foi comemorado no já distante ano de 2005 quando, em uma tarde quente, fui entrevistar o filho dele.

Lembro bem: ventava no bairro Petrópolis, em Porto Alegre quando cheguei à casa mítica da Rua Felipe de Oliveira. Mítica para mim, ou para os curiosos que vêm fotografá-la para levar como recuerdo de viagem o retrato da morada dos Verissimo; para Lúcia, é apenas o lugar aconchegante onde ela e o marido vivem. Recebe-me na porta, com seus grandes e simpáticos olhos azuis, e me faz entrar com a sem-cerimônia das pessoas generosas. Vim fazer uma entrevista sobre Erico Verissimo.

– Ah, o seu Erico! – suspira. – Parece que ainda o estou vendo sentado na poltrona do escritório revisando e corrigindo originais em cima de uma tábua. E depois desenhando a tábua com lápis de cera...

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O escritório tem as paredes tomadas de livros. Vejo, acima das prateleiras, uma das tábuas desenhadas por Erico. De tão bela e colorida, virou quadro. Lúcia mostra uma edição romena de O Senhor Embaixador recém-lançada. Sem cortes. A edição anterior, publicada durante a ditadura comunista, fora mutilada pela censura. Luis Fernando aparece logo em seguida. Conta-me sobre sua viagem a Bucareste para o relançamento da obra do pai. E para o lançamento das traduções romenas de seus próprios romances. Percebo logo a famosa timidez tão propalada. Mas é daquele tipo de timidez que não causa desconforto ao interlocutor. Ao contrário, Luis Fernando faz troça da quietude que herdou do pai.

– Uma vez, nós viajamos juntos, tomando o trem de Cruz Alta para Porto Alegre. O pai me deu bom dia na partida, e eu respondi boa tarde na chegada...

Conversamos sobre o traço humanista da literatura de Erico, de sua independência, de sua aversão ao patrulhamento da direita, que o chamava de pervertido e subversivo, e do partido comunista, que exigia dele a mesma adesão de um Jorge Amado, por exemplo. Olho as fotos, os livros, os desenhos em volta e experimento a estranha sensação de que ele está presente. Mas não é um frêmito metafísico. É que lembrei de Tibicuera, Ana Terra, Capitão Rodrigo, Floriano, essa gente que povoou minha imaginação adolescente. Um escritor vive em suas histórias. E se elas perduram 30 ou 40 anos depois da morte de seu autor, é porque são definitivas. Depois da entrevista, ainda falamos de Santa Maria. Uma nova visita à nossa feira do livro?

– Por que não? – diz, sorrindo.

Quando me despeço e saio à rua, vejo que está ventando. Por que será que sempre venta quando acontece algo importante?


 
 

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