Cronistas do Diário: No calçadão de Copacabana, por Vitor Biasoli - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião20/10/2016 | 07h17Atualizada em 20/10/2016 | 21h53

Cronistas do Diário: No calçadão de Copacabana, por Vitor Biasoli

Cronistas do Diário: No calçadão de Copacabana, por Vitor Biasoli Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Vitor Biasoli

vbiasoli@gmail.com

Fui passear no calçadão de Copacabana, e um malandro tentou me aplicar um golpe. Veio, para mim, falando em inglês, avisou que meus "shoes" estavam manchados de tinta "yellow" – estavam mesmo – e se predispôs a limpá-los. Eu respondi, em bom português, que ele não se incomodasse e segui em frente. Estava em frente ao Posto 5 e, logo adiante, sentei num banco, tirei um lenço de papel da mochila, e eu próprio limpei os sapatos.

Felizmente, era uma tinta fácil de tirar, e imaginei que ele mesmo a jogara num gesto certeiro, enquanto eu caminhava distraído. Um belo golpe, sem dúvida, adequado para pegar turista embasbacado com o cenário praieiro de Copacabana. Um golpe para turistas extasiados, otários em potencial.

Sentado num banco de pedra na beira do mar, depois de limpar os sapatos, lembrei das crônicas de Fernando Sabino, que aprendi a ler e gostar no tempo do ginásio. Sabino, na certa, faria coisa muito boa com esse pequeno incidente. Talvez, narrasse a história da perspectiva do sujeito que é alvo do golpe – um mineiro que recém chegara ao Rio –, o qual conversaria com o malandro e aprenderia alguma coisa a respeito da "alma carioca".

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Mas se o personagem fosse um gaúcho, o que Sabino imaginaria? Que ele enfrentaria o malandro num rompante? Não sei. Eu não conversei feito um mineiro matreiro nem encarei o sujeito com a determinação corajosa do gaúcho de anedota. Apenas desconversei e saí como se nada tivesse acontecido.

Sentado num banco do calçadão da Avenida Atlântica, procurei me comportar ao contrário do turistão extasiado que eu realmente era. Eu me levantei para continuar o passeio e tentei olhar o mar, indiferente. Mas é impossível um gaúcho encarar com indiferença a praia ensolarada de Copacabana. A praia e sua paisagem humana.

Na minha frente, duas mulheres de biquíni fio-dental anunciavam que eu não estava num cenário qualquer. Eram mulheres de anatomias irretocáveis, de capa de revista, e segui fingindo naturalidade – com receio de que outro malandro carioca bispasse que eu não era um nativo. Que eu não era um sujeito habituado a tanta beleza. Que era, isto, sim, mais um turista pronto para um golpe.


 
 

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