Cronistas do Diário: Gaiolas e vasos. por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião21/10/2016 | 07h04Atualizada em 21/10/2016 | 14h50

Cronistas do Diário: Gaiolas e vasos. por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: Gaiolas e vasos. por Jumaida Rosito Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

A maioria de nós repudia a atividade impiedosa de manter passarinhos confinados; é difícil entender o propósito de aprisionar criaturas que voam e são feitas de amplidão e possibilidades. A lógica dos carcereiros é rasa – passarinho que nasce em cativeiro não sobrevive em liberdade; mas, como eles foram parar lá? Vejo, aí, uma certa crueza de alma, e só por esse viés consigo entender essas pessoas. Guardadas as proporções, é o que fazemos com as plantas cultivadas em vasos. Eu acho que elas são os pássaros engaiolados do mundo vegetal.

A grande maioria nem sabe, mas envasamos jasmins que foram trazidos da China, alfazemas mediterrâneas, helicônias amazônicas e babosas africanas. Lá, em seu ambiente de origem, com as raízes bem ancoradas no chão, as plantas dispensam nossos cuidados. Encontram a água necessária, posicionam as folhas, como painéis solares, e fazem sua mágica; ou fotossíntese, como queiram. Transpostas aos vasos, tornam-se reféns. Dependem de nosso bom senso para aproximá-las da luz, para que não morram de sede ou afogadas, ou cozidas ao sol, em cachepôs de barro. Tantas vezes mutiladas pelas podas sem ciência, contentam-se com grãozinhos de adubo ou afofadas de terra. Vidas limitadas e atreladas a nossa. Como acontece com os pássaros que engaiolamos.

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À parte da vaidade de possuir o que é belo e raro, acredito numa razão visceral para esse impulso humano, de domesticar o que é selvagem. Vivíamos em harmonia com o ambiente, do qual éramos parte indissociável, mas, para alcançar a civilidade, pagamos o preço do rompimento. Hoje, a cada um toca uma nesga de terra, às vezes dividida com vizinhos que nem conhecemos, empilhados acima ou abaixo de nós. Apartados de nossas origens, desligados dos outros elementos da biosfera, metemos os pés pelas mãos tentando resgatar nossa essência – trazemos pedaços de natureza para dentro de casa. Como não amar a companhia de plantas e pássaros, não é mesmo? Então, que Deus livre suas criaturas do nosso amor humano! Enquanto escrevo, uma música há muito esquecida se insinua, mas me escapa sempre que tento puxar pela memória. Quando finalmente se fez clara, entendi sua mensagem:

 "O seu amor,
   ame-o e deixe-o
   ser o que ele é,
   ser o que ele é,
   ser o que ele é."

Reouvi a canção dos anos 70, pela voz dos "Doces Bárbaros", e fiquei pensando que talvez seja esse o apelido que nos dão, a planta no vaso e o passarinho na parede, quando conversam entre si.


 
 

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