Cronistas do Diário: Dóris, por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião14/10/2016 | 07h09Atualizada em 20/10/2016 | 21h57

Cronistas do Diário: Dóris, por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: Dóris, por Jumaida Rosito Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Gente, recebi uma carta! Uma mensagem com jeito de antigamente, escrita à mão, em folha pautada. Tem a identificação da cidade e a data na primeira linha, à direita da folha; segue um cumprimento carinhoso, o corpo do texto, despedida e assinatura. Tudo direitinho. Dóris é o nome da remetente. Ela não mencionou sua idade, mas imagino que seja um pouco mais velha que eu. A minha geração foi atropelada pela linguagem digital, mas os que nos antecederam deram-se ao luxo de optar. Pode ser o caso dela, que parece confortável escrevendo cartas. Ou isso ou ela é de um romantismo derramado (um anexo com poesia de Mário Quintana fortalece essa hipótese).

Dóris expressa-se muito bem e manifesta suas ideias com clareza e elegância. Além das crases corretas, pontos e vírgulas bem colocados permitem que se respire no lugar certo. A letra é de caderno de caligrafia! Um capricho que não se vê mais. O ¿jota¿ do meu nome virou um arabesco; o ¿c¿ maiúsculo, com uma cauda de enfeite, ultrapassa a altura da linha, mas mantém o charme, mesmo no meio de uma frase. Tudo isso me faz pensar num jeito de professora. Posso presumir mais; pela delicadeza do texto, imagino uma fineza de alma. Ela tem um pé na poesia (não por acaso, me enviou Quintana) e, por uma ou outra palavra, deixa escapar sua crença espiritual.

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Dóris, o teu afago chegou em boa hora; ando meio desanimada com a nossa espécie. Nada além da conta, mas, convenhamos, em se tratando de plenitude de vida, o mar não está para peixe. Recebo de bom grado as palavras de encorajamento, mas preciso declinar de uma grandeza que não possuo. É bem verdade que amo ¿as plantas, os animais, os filhos¿, mas não toda a humanidade; com essa, vivo em conflito, justamente por amar as plantas, animais e filhos. Mas, se, às vezes, eu me horrorizo com nossa crueza, em outras, eu me surpreendo com o aconchego de manifestações como a tua.

Essa carta não me trouxe só agrado ao coração; ela me lembrou de exercitar mais amiúde uma atitude já tão rara – prestigiar o outro. Tu dedicaste, a uma estranha, tempo precioso de um dia de setembro. Escrever, envelopar, endereçar, selar, enviar, quem ainda se dá a esse trabalho? Talvez, seja esse o antídoto esquecido para o Mal da Desqualificação dos Sentimentos. Substituímos a presença por mensagens, palavras, por letras, e figurinhas traduzem sentimentos. A crítica fácil e compartilhada calou o elogio. Mas eu, hoje, recebi uma carta inesperada, manuscrita por alguém que não conheço. Nem 100 milhões de seguidores nas redes sociais me deixariam mais honrada. 


 
 

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