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Opinião07/10/2016 | 20h30Atualizada em 07/10/2016 | 20h30

A menina mangá

"Conseguiu, enfim, evitar o hábito assustador de fazer cortes nos próprios braços"

A menina mangá Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução

Vou chamá-la de Alice. É que quando a conheci, me pareceu estar diante da própria Alice de Lewis Carroll recém-chegada do País das Maravilhas: loirinha, fita nos cabelos lisos e longos, saia plissada à altura dos joelhos, meias curtas e sapatinho baixo. Alice se veste como uma personagem de um mangá. Depois fiquei sabendo tratar-se de uma tribo adolescente cujo modo de se vestir e se portar procura reproduzir a estética desse tipo de história em quadrinhos vinda no Japão.

Alice, aliás, desenha lindamente. Eu a vi usar o lápis grafite para fazer um mangá dela mesma, mas com um detalhe perturbador: a menina que ela desenhou ninava a própria cabeça nos braços como se tivesse sido mandada decapitar pela rainha de copas. Seus grandes olhos de mangá japonês estavam fechados. No canto de cada um deles escorria um fio de lágrima. A melancolia evidente daquela imagem é, entretanto, um enorme progresso.

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Hoje, Alice expressa a intensa angústia que sente desenhando mangás. Conseguiu, enfim, evitar o hábito assustador de fazer cortes nos próprios braços.

Mesmo sendo pai de adolescente, eu nunca tinha ouvido falar de um fenômeno sócio-psíquico de proporções tão grandes que as autoridades já o tratam como problema de saúde pública. Os psiquiatras o estão chamando de auto-agressão não suicida. Trata-se do ato de fazer cortes no próprio corpo para aliviar angústias psicológicas. O adolescente que faz isso não quer se matar. Não sabendo como lidar com seus fantasmas interiores, recorre à automutilação para tentar se sentir melhor.

Há um enorme tabu que envolve esse assunto numa cortina de silêncio. Mas todos os psiquiatras com quem conversei disseram o mesmo: é preciso falar sobre um fenômeno que, segundo estudos internacionais, atinge um em cada cinco adolescentes. Mais assustadora do que a auto-agressão não suicida é a omissão dos pais. Alice tinha 12 anos quando se cortou pela primeira vez. Ela filmou tudo e postou no Facebook. A família ficou chocada. Mas quando perguntei por que tinha postado, Alice me deu uma resposta desconcertante: "porque meu pai não liga pra mim".

Há muita tristeza nos desenhos de Alice. Mas, folheando sua pasta de mangás, vi também cupidos, sóis nascentes e meninas levitando. A garota mangá, que só usa camisetas de mangas compridas para ocultar as cicatrizes, não conseguiu atrair o afeto do pai ausente. Mas tem uma mãe amorosa que, depois do choque, virou sua grande companheira e confidente, e até aprendeu a desenhar. Mangás solares hão de sair a quatro mãos na prancheta de Alice.

 
 

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