Cronistas do Diário: Para ganhar a eternidade, por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião02/09/2016 | 06h33Atualizada em 02/09/2016 | 06h33

Cronistas do Diário: Para ganhar a eternidade, por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: Para ganhar a eternidade, por Jumaida Rosito Arte DSM/
Foto: Arte DSM

Via rede social, recebo a imagem do Jasminum polyanthum, lindamente florescido no quintal de uma amiga. Como já fez outras vezes com os tesouros botânicos que se revelam em sua casa, ela compartilhou conosco o encanto pela trepadeira de pequenas flores rosadas, que chamou de ¿jardim-dos-poetas¿. Adivinhei aí, só um pequeno engano, mas mesmo assim, senti a coceira acadêmica de corrigir - ¿jardim¿ por ¿jasmim¿. Segurei o impulso de professora, porque, nesse caso, interessante mesmo é a parte que fala dos poetas. Para carregar consigo tal alcunha, essa espécie com perfume tão delicado quanto intenso, deve ter inspirado trovadores, quem sabe, abrigado singelos amores, no tempo em que essas coisas aconteciam. Sem dúvida, impressionou minha amiga, que por ele, arriscou dois ou três versos, embriagada por um romantismo irrefreável, que atribuo a um efeito colateral de se admirar certas plantas feiticeiras. Ela corrigiu seu pequeno equívoco rápida e espontaneamente, e me salvou de parecer pedante ou apegada a preciosismos inúteis. Mas, mexida pelo assunto, minha cabeça de botânica desembestou a matutar sobre a história do nome das plantas.

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Cada uma delas tem um só nome científico correto, escrito em latim, como aquele que coloquei em destaque, no princípio dessa conversa; no entanto, podem ter muitos apelidos que, como dizia a meus alunos, não devem ser levados muito a sério. Assim, comer uma ¿bergamota¿ ou uma ¿mexerica¿, dá no mesmo, e tanto faz falar em ¿espada-de-são-jorge¿ ou ¿língua-de-sogra¿. Mas, não se enganem, mesmo sem rigor científico, esses nomes populares são carregados de sabedoria. Assim, recomendo cuidado com a ¿comigo-ninguém-pode¿, ela é mesmo bem perigosa; quanto ao ¿copo-de-leite¿, para quem conhece, é um exemplo de obviedade. Dona Marlene, que cuida de tudo aqui em casa, batizou de ¿fuxico¿, a uma planta de flores azuis que eu cultivava, e que parecia, de fato, com as trouxinhas artesanais de pano, costuradas uma a uma; nem discuti.

Na minha família, apelidamos as frísias, de ¿flor-do-céu¿, porque o perfume lembra exatamente isso - é divino. Eu tive uma tia-avó incapaz de chegar a uma casa, de mãos vazias; quando ela nos trazia ramalhetes das frísias que cultivava, sua visita se prolongava por dias, no cheiro adocicado que vinha

do vaso, sobre a mesa da sala. Herdei dela algumas sementes, e já há décadas que adivinho o fim do inverno, pelas flores que desabrocham trazendo consigo sua lembrança carinhosa. Difícil imaginar coisa mais bonita do que ficar eternizada num perfume de flor. Assim também vou lembrar da minha amiga, a que se fez poeta por um fragrante e inspirador jasmim, que anda aromatizando até mesmo a chuvarada desses últimos dias.

 

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