Cronistas do Diário: Nós que nos precisamos tanto, por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião09/09/2016 | 07h12Atualizada em 09/09/2016 | 07h12

Cronistas do Diário: Nós que nos precisamos tanto, por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: Nós que nos precisamos tanto, por Jumaida Rosito Arte DSM/
Foto: Arte DSM


Aos 16 anos, li numa revista feminina a pergunta boba que me marcou para sempre: ¿o que mais lhe agradaria ouvir, eu amo você, ou, eu preciso de você?¿. Nunca entendi a importância que dei ao assunto, e, na verdade, quem pode explicar por que certas besteiras ficam marcadas na memória da gente. O fato é que lembro, até hoje, daquele momento: eu estava num ônibus a caminho do colégio, acomodada num dos bancos, atrás do motorista; sei da rua e do trecho exato do percurso, e isso já tem mais de 40 anos!

Na idade das paixonites, é claro que levei o assunto para o lado do amor romântico, talvez por isso, tenha ficado tão impressionada. A declaração de amor clássica era tudo que adolescentes da época queriam ouvir. O ¿ser necessário a alguém¿, parecia uma versão mais apimentada, picante, como num romance proibido, incompreensível para mim naquele momento (estou falando de adolescentes dos anos 70, contextualizem, por favor!). Definitivamente, havia alguma coisa nesse assunto de amor, que eu ainda não entendia...

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O tempo passou e a minha vida seguiu como a de todo mundo, aos tombos. A gente experimenta coisas e explora os limites da alma. Ama bichos e pessoas, faz tudo errado, corrige o rumo, falha outras vezes, vivencia a paixão pela fé, pelos ídolos e causas. Alguns estraçalham o coração, que em outros, é blindado; o meu, entreguei de vez, quando encarei a maternidade. Mas nunca deixei de me fazer aquela pergunta. 

À medida que o tempo passava, eu expandia meus horizontes de amor; eu amo você, ou eu preciso de você, poderiam ter, agora, o som da voz de uma das crianças, ou o olhar pidão dos meus cachorros, ou estar no abraço apertado de uma pessoa querida. Finalmente, por tudo que vivi e vivo, nesse território pantanoso dos afetos, pude responder à questão que me acompanhou por décadas: eu preciso que precisem de mim. Pode não ser saudável, nem exemplar, e já ouvi, mil vezes, que o amor ideal é livre, prescinde da necessidade, mas não posso evitar, sou uma cuidadora incurável. Mas talvez eu possa me explicar. 

A humanidade costuma ser mesquinha e decepcionante; maltratamos animais, menosprezamos pessoas, matamos rios, e o individualismo, mal que cuidamos em disfarçar, nos torna lentos nessa coisa de amor universal. Mas, o curioso é que reagimos, vigorosamente, às grandes tragédias. Elas funcionam como uma espécie de gatilho, que desperta heróis adormecidos e nos faz derramar bem-querer por todos os poros. Talvez eu seja um pequeno reflexo desse tipo de amor embrionário, mas é justamente quando me chamam, que revelo o meu melhor. 

Aceito minha pequenez, mas acho que não estou sozinha; lá no fundo, todo mundo gosta de ser indispensável para quem ama. O amor libertário é para poucos.

 

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