Cronistas do Diário: Entre ouvidos moucos, por Jumaida Rosito  - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião15/09/2016 | 20h40Atualizada em 15/09/2016 | 20h39

Cronistas do Diário: Entre ouvidos moucos, por Jumaida Rosito 

jumaidadiario@gmail.com

Cronistas do Diário: Entre ouvidos moucos, por Jumaida Rosito  Arte DSM/
Foto: Arte DSM

¿Conversas tolas, ouvidos moucos¿, ouvia minha avó recitar, enquanto moldava seus mais-que-perfeitos bolinhos de batata recheados de carne; eu a observava com meus olhos de criança, encantada pelos mistérios do quitute e da palavra desconhecida, ¿moucos¿. O problema da palavra, resolvi algum tempo depois, quando atinei em procurar o dicionário, mas o segredo dos bolinhos se foi com ela. O que minha avó não sabia, porque estávamos nos anos 60, é que ouvidos insensíveis se tornariam tão comuns, décadas mais tarde, que eu me atreveria a prenunciar uma pandemia.

O ¿mal dos ouvidos moucos¿ pode ser diagnosticado por sintomas facilmente detectáveis, basta um pequeno teste: você tem paciência para escutar queixumes, histórias contadas de-ta-lha-da-men-te, as reminiscências repetitivas dos idosos, as derivações sem pé nem cabeça das crianças? Se sua resposta foi ¿não¿, considere-se portador da patologia; se pensou em ¿às vezes¿ ou ¿depende¿, ainda há tempo para tratamento e reabilitação!

Tornar-se um ouvidor voluntário não tem contraindicações; os efeitos colaterais dessa prática qualificam o mundo, já que a solidão é o mal que nos aflige, e a modalidade #solidão acompanhada, uma das suas faces mais cruéis. Mas, ouvir as pessoas com amorosidade é um dom que requer delicadeza e exercício; na verdade, para os esclarecidos, que atentam para a precariedade das relações humanas, é quase um ofício. Aliás, se você está à procura de uma causa, fica aí a sugestão; comece a combater os ouvidos moucos em sua casa mesmo. 

Quando chamado, preste atenção, ouça, mas, acima de tudo, feche a sua boca! Poucas coisas são mais irritantes do que gente que interrompe conversa. Resista ao impulso de usar suas próprias histórias como exemplo, de dar conselhos desnecessários ou ensaiar censuras acachapantes. Lembre-se: quem fala gosta de ser o ator principal, permita, generosamente, que isso aconteça. Expressões de assentimento, solidariedade ou motivação são bem-vindas, tudo com olho no olho; coisas como ¿hum-hum¿, ¿é mesmo?¿, ou ¿meu Deus!¿ demonstram interesse na medida exata, sem tirar do seu interlocutor o protagonismo.

O ¿mal dos ouvidos moucos¿ instalou-se entre nós lentamente, à medida que esquecemos os saraus de família, as refeições compartilhadas e as visitas de final de semana. Sua propagação responde ao crescente assoberbamento da vida e à chegada de tecnologias isolacionistas. É muito triste imaginar uma multidão de seres humanos cyberconectados, mas terrivelmente sós. Felizmente, há cura para todos, sendo a consideração pelo outro, o remédio mais eficaz.


 
 

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