Cronistas do Diário: Delicadeza e pragmatismo, por Vitor Biasoli - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião08/09/2016 | 11h55Atualizada em 08/09/2016 | 11h55

Cronistas do Diário: Delicadeza e pragmatismo, por Vitor Biasoli

Cronistas do Diário: Delicadeza e pragmatismo, por Vitor Biasoli Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução
Vitor Biasoli

vbiasoli@gmail.com

O leitor recorda quando escutou uma sinfonia de Mozart pela primeira vez?

Eu tenho a impressão que me aconteceu quando eu tinha 16 anos e uma namorada de 18. Ela colocou o disco de vinil num toca-disco portátil e lembro bem o deslumbramento que tomou conta de mim. A música era acompanhada por alguns chiados e nem se compara à qualidade sonora de um CD dos dias de hoje.

Estávamos na sala de jantar dos fundos da sua casa, o pequeno toca-disco em cima do balcão de louças, um quadro convencional na parede (com lago, cisne e templo greco-romano ao fundo) e fiquei completamente embasbacado. Acho que nem sabia quem era Mozart e a sinfonia talvez fosse a famosa número 41, a ¿Júpiter¿.

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Se meu pai havia me apresentado Beethoven; minha mãe, Chopin; essa namorada me iniciava nas ¿grandezas arquitetônicas¿ de Mozart e esse encantamento até hoje não teve fim. O namoro terminou, claro. A mãe dela convenceu-a de que eu não passava de um guri e que ela pensasse melhor no futuro. Ela considerou os argumentos da mãe e me dispensou.

Mas foi gentil essa namorada: esforçou-se para que eu entendesse a situação sem grande sofrimento e eu aparentemente entendi. Um dia, porém, encontrei-a com um rapaz mais velho – o braço dele sobre o ombro da moça – e só então percebi que não tinha compreendido coisa alguma. Senti um baque no peito e sai batendo pernas pela cidade horas a fio, tentando assimilar o impacto da cena. Eu era mesmo um ¿guri sem futuro¿ e o novo namorado, este sim, um ¿bom partido¿, um promissor especialista na área do

couro e dos calçados, que na certa lhe proporcionaria uma existência tranquila.

Mozart, no entanto, ficou – e devo agradecer isso a ela. Fiquei com a música de Mozart, seu equilíbrio e sua perfeição harmônica, assim como a lembrança de uma delicada namorada de juventude. Delicada, suave e também racional e realista, capaz de me fazer percorrer o longo caminho entre o súblime da música clássica e o duro pragmatismo que a vida exige da maioria de nós.

 
 

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