Cronistas do Diário: A receita de Sônia, por Marcelo Canellas - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião10/09/2016 | 07h35Atualizada em 10/09/2016 | 07h35

Cronistas do Diário: A receita de Sônia, por Marcelo Canellas

Cronistas do Diário: A receita de Sônia, por Marcelo Canellas Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução

Sônia corta o tomate bem miudinho. Faz o mesmo com a cebola. O cheiro verde, ela macera. Eu a vi usando também pimenta, alecrim e coentro. Nada mais. Serve para todas as carnes, para o feijão, para os molhos, para tudo. É espantoso que um repertório tão restrito de temperos confira uma gradação de sabores tão variada. Talvez haja uma ciência intuitiva baseada na dosagem precisa e adequada para cada prato, no ponto de cozimento, de fritura ou da fervura de cada comida. Ou é apenas o talento nato de alguém que nasceu para nos surpreender pelo paladar.

Sônia sonha abrir um restaurante de comida caseira: peixes, carne de panela, feijões, farofas, ensopados, risotos, macarronadas, tudo bem baratinho e simples, mas com o poder milagroso de nos reacender a memória ancestral de velhas reuniões de família, de almoços domingueiros na casa de nossos avós, da celebração da mesa como ponto de encontro e de partilha de histórias e afetos.

Desde que o mundo é mundo, os sabores unem pessoas. Sônia é danada. Sônia é sabida. Queria o restaurante num bairro de subúrbio ou numa prainha remota, onde há gente que quer se sentir em casa enquanto come.

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O projeto vai sendo adiado por – como ela diz – falta de capital. Sônia é diarista, e tem outras prioridades. Conseguiu a façanha de comprar um lote em Itaboraí, no Grande Rio, e erguer seu barraco de alvenaria. Cercou o terreno com arame, cavou um poço de chão e, com a ajuda do neto mais velho, fez erguer quatro paredes em uma semana. Perdeu a mão de obra quando o rapaz sumiu depois de lhe roubar o celular para trocar por uma pedra de crack.

Sônia chora pelo neto. Celular ela compra outro. Mas como fazer o guri acreditar na redenção do trabalho e na lealdade como valor? Nem o governo dá exemplo, ela diz. "Político trai político toda hora. Porque não trairia o povo"? Sônia diz cada coisa que me deixa bobo. Tem uma veia crítica que não perdoa ninguém. Nem a narração do Galvão Bueno – "muito gritão" – nem o coronel Saruê da novela, "é corrupto e rouba os pobres". 

Mas o que lhe tira a paciência é a burrice. Aquela mulher que saiu na televisão, outro dia, sugerindo que uma jovem negra "nasça branca da próxima vez", fez com que Sônia berrasse: "mulher burra"!

Para a negra Sônia, gente é gente. E raça, como na música do negro Gilberto Gil, é a humana. "Não somos todos iguais?". Pode ser, mas só alguns humanos nos conseguem revelar, a partir do recurso escasso de alguns temperos, os sabores da vida. A melhor receita de Sônia foi picar o sofrimento bem miudinho para servi-lo no prato quente da altivez.

 
 

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