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Opinião19/09/2016 | 19h30Atualizada em 19/09/2016 | 19h30

Bola de sebo    

"A política de inclusão social dos últimos anos no Brasil é a Bola de Sebo da nossa realidade, que mais parece uma ficção da pior categoria"

Bola de sebo     Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução

Nestes tempos de golpes, contragolpes, provas, contraprovas e convicções, lembrei-me de um conto do escritor francês Guy de Maupassant. Escrito em 1880, tem como cenário a guerra franco-prussiana. Em uma carruagem, fogem um grupo de burgueses, duas freiras e uma prostituta, Bola de Sebo, que dá nome à narrativa, sendo essa a protagonista. Única representante das classes inferiores, como a fuga se deu às pressas, somente ela se lembrou de levar alguma coisa para comer na viagem. O que acaba sendo de utilidade para o grupo, pois se dispõe a compartilhar as provisões do seu farnel.

Em uma estalagem no caminho, são abordados por uma tropa do exército inimigo, e um general impõe que só os deixará prosseguir se Bola de Sebo se dispuser a passar uma noite com ele. O resto da história, vocês já sabem, pois o Chico Buarque – influenciado por Brecht, que se inspirou em Maupassant – deu à personagem Geni, na Ópera do Malandro, o mesmo destino criado pelo francês em seu conto.

A política de inclusão social dos últimos anos no Brasil é a Bola de Sebo da nossa realidade, que mais parece uma ficção da pior categoria. Digo política para não fulanizar essas minhas considerações despretensiosas – sou precavido, pois os detratores, os de patrola e os de patrulha, estão soltos e quase sem freios. Embora o Brasil tenha se tornado a sétima economia global, de devedor do FMI a credor, e tenha passado a figurar entre potências emergentes formando um bloco, 30 milhões de brasileiros saíram da miséria, milhões ingressaram na classe média e tantos outros trabalhadores deixaram a informalidade. A história republicana não registra outro momento de busca de equilíbrio entre as classes. Entretanto, apesar de, em nenhum outro momento os rentistas terem ganhado tanto, nossa Bola de Sebo é execrada, tendo a sua condição exposta como a pior.

Mesmo dentre os beneficiados com programas de resgate social como Bolsa Família, Fies, Prouni, Sisu, Jovem Aprendiz, Ciências sem Fronteira, Mais Médicos, PAC 1 e 2, Piso Nacional dos Professores, ampliação das cotas raciais, o discurso ofensivo da oligarquia – da Casa Grande – ganha o imaginário e se torna a verdade entre os viajantes. Nada disso vem ao caso, e a nossa Bola de Sebo – acusada de ser a maior corrupta da república – será deixada na estalagem da história pelo falso moralismo, pelas boas intenções daqueles que fazem a propaganda enganosa de que o progresso e a prosperidade só serão alcançados por quem seguir viagem com eles. O resto, ora o resto...

 

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