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Opinião30/08/2016 | 06h07Atualizada em 30/08/2016 | 06h07

Vendedor de mapas    

"Deparo-me com uma figura humana que me pareceu anacrônica: um vendedor de mapas"

Vendedor de mapas     Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução

Na avenida Medianeira, entre um supermercado e uma agência bancária, deparo-me com uma figura humana que me pareceu anacrônica: um vendedor de mapas. Pensei estar extinto tanto o negócio quanto o negociante, subtraído da contemporaneidade pelo mesmo sumidouro em que desapareceram os leiteiros, os mascates, os vencedores de enciclopédia. Em tempos de GPS, de redes sociais e aplicativos de localização, no computador ou no smartphone, haveria espaço para aquele cidadão e seu mister? Mister também é uma palavra em vias de extinção. Quem compra mapas hoje em dia? Mas ele estava localizado ali, como o mapa mundi que expunha.

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Há quem se perca nos dias de hoje? Quem corra o dedo em um mapa impresso para reconhecer um roteiro de viagem? Ainda é comum ver um em paredes de rodoviária ou de bares de beira de estrada. Sou particularmente atraído por eles, desde que tomei contato, pela primeira vez com um mapa. Minha localização mental de espaço e tempo se constitui de imagens da minha infância. Quando algo remete ao país, construo o mapa do Brasil que havia na minha primeira sala de aula, no antigo primário. Assim como, para entender as horas, reconstituo o movimento dos ponteiros do relógio. Ou seja, ainda não me livrei de todo da minha formação analógica. Mas já não compraria um mapa.

O acesso facilitado e a disponibilidade abundante de informações tornam obsoletos estes quadros enormes. E o que dizer daquela dificuldade em voltar a dobrar um mapa rodoviário? De modo instantâneo podemos saber onde estamos, em qualquer rua de qualquer cidade, em qualquer estrada de qualquer país. No entanto, temo dizer do vendedor, em sua atividade bem intencionada — no fundo não deseja que alguém se perca por falta de um mapa — que esteja obsoleto.

Algo ainda me sensibiliza na humana disposição dos que resistem, como a do jornalista que abandonou a profissão para se estabelecer em um sebo, quando o mercado se encaminha para o digital. A essência de sua disposição está em fazer sobreviver o encantamento de procurar um livro. Esse eu conheço, porque não fui seduzido (totalmente) pela tecnologia digital. Faz anos, porém, que não compro um CD, com as facilidades dos downloads, do streaming e da nuvem. Com isso abri mão do fascínio pelo design do produto, a leitura das fichas técnicas e das letras das canções. Mas não vou me perder por aí. Vai-se perdendo alguma sensibilidade, todavia hão de aflorar outras virtudes, que o mapa e o vendedor podem indicar: não é possível descartar o humano.

 

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