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Opinião12/08/2016 | 19h50Atualizada em 12/08/2016 | 19h50

Impressões olímpicas sobre nós

"Quando o espetáculo terminou, dava, sim, para achar bom ter nascido no Brasil"

Impressões olímpicas sobre nós Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução

Quando Paulinho da Viola começou a dedilhar os acordes do hino nacional, parecia mesmo que era o Brasil cantando. Eu estava no Maracanã, e vi uma porção de gente chorando em volta. Estamos carentes de algo que nos orgulhe, e ver o talento extraordinário de Paulinho personificando a nação foi um rito catártico. Antes, a contagem regressiva em um mosaico inspirado nos traços de Athos Bulcão já estava ressumada de brasilidade.

Os diretores artísticos da festa de abertura da olimpíada chegaram a dizer que, para faze-la, gastou-se apenas 15% do que foi gasto em Londres, quatro anos atrás. Seria o triunfo da criatividade sobre o poder da grana. Mas depois alguém contestou, parece que não foi tão pouco assim, e o custo real acabou ficando na zona nebulosa da falta de transparência, essa praga da qual não conseguimos nos livrar em canto algum onde existam recursos colossais em jogo neste nosso país tão judiado.

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De todo modo, não se pode tirar o mérito de um roteiro muito bem realizado, que não renunciou à crítica ao nosso passado escravista, à desigualdade que nos açoita até hoje, à desordem urbana do crescimento descontrolado. E tudo isso sem deixar de nos emocionar com o que temos de original e belo. Nosso engenho criativo decolou numa réplica do 14 Bis, que saiu voando Maracanã afora.

Há quem diga que recorremos ao expediente fácil dos medalhões. Mas, ora bolas, se os britânicos atacaram de Paul McCartney, por que deveríamos renunciar à genialidade de Caetano, Gil e Jorge Benjor? País Tropical cantado à capela por 60 mil pessoas foi mesmo de arrepiar. Quando o espetáculo terminou, com uma chuva de pombas brancas de papel sobre a arquibancada, dava, sim, para achar bom ter nascido no Brasil que dá certo. O problema é que os jogos começaram pra valer no dia seguinte, e aí apareceu o Brasil que patina.

Outros países também têm suas histórias de superação, com meninos e meninas pobres, órfãos ou não, que vencem a pobreza e viram medalhistas. Inclusive os Estados Unidos, como é o caso da fenomenal Simone Biles, filha de uma dependente de drogas. Nós temos Rafaela Silva. Acontece que as Rafaelas Silvas deles encontram amparo em políticas públicas que unem esporte e educação em um processo continuado e planejado, com metas, recursos e — olha ela aí — transparência. A nossa Rafaela é, de fato, um fenômeno. Mas é um talento que só se salvou graças a um projeto social fora do âmbito do Estado. Um dia, talvez, nos orgulhemos do Brasil como nos orgulhamos de Rafaela.

 

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