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Opinião27/08/2016 | 05h54Atualizada em 27/08/2016 | 05h54

Geneton 

"Era um frasista genial. E uma de suas frases mais conhecidas marcou profundamente sua trajetória"

Geneton  Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução

Geneton de Moraes Neto nos deixou na segunda-feira passada. Eu o conheci em 1990, quando fui trabalhar na TV Globo do Rio de Janeiro. Na época, ele era editor do Jornal Nacional, e uma de suas principais atribuições era fazer a "escalada", aquelas frases curtas do começo do telejornal, em que os apresentadores destacam os assuntos mais importantes torpedeando manchetes. Sempre espirituoso, preciso e contundente, Geneton tinha evidente talento pra fazer escaladas e chamadas. Era um frasista genial. E uma de suas frases mais conhecidas marcou profundamente sua trajetória: fazer jornalismo é produzir memória.

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Grande parte das pessoas que ele procurava para entrevistar tinha contas a acertar com o passado. Como é o caso dos generais Newton Cruz e Leônidas Pires Gonçalves, truculentos representantes do regime militar já no ocaso da ditadura, e os onze jogadores da seleção brasileira que perdeu a copa do mundo de 1950 para o Uruguai. Geneton foi o último jornalista a entrevistar Carlos Drummond de Andrade, que morreria dias depois. O poeta lhe fez confissões íntimas, inclusive sobre a vida dupla que levava, mantendo uma relação extraconjugal de 36 anos com Lygia Fernandes. Lygia diria a Geneton que o poeta teve não um, mas 83 casos extraconjugais, embora ela garantisse ser o único amor duradouro do autor de A Rosa do Povo.

Geneton fez documentários magistrais. Em 2012, produziu Garrafas ao Mar: a Víbora Manda Lembranças. O filme é resultado de conversas gravadas ao longo de 20 anos de convivência com Joel Silveira, um mito do nosso jornalismo, considerado por muitos o maior repórter que a imprensa brasileira já viu. O último filme de Geneton foi lançado no ano passado. Cordilheiras no Mar: a Fúria do Fogo Bárbaro é um documentário sobre Glauber Rocha e seu polêmico apoio ao projeto de abertura democrática do general Ernesto Geisel.

Geneton era, de fato, um entrevistador brilhante. Mas pude me certificar da importância de sua faceta de repórter ao visitar São Caetano, a 150km do Recife, onde ele fez uma de suas mais espetaculares reportagens, tirando da sombra a Fundação Música e Vida, um maravilhoso projeto social que transforma crianças pobres em instrumentistas. A reportagem ganhou dezenas de prêmios internacionais, dando uma visibilidade tão grande que fez chover financiadores no agreste pernambucano. De um dos jovens músicos que o repórter entrevistou, em 1993, e que hoje é professor, ouvi: "Geneton mudou a minha vida. Geneton mudou a vida da nossa cidade". Talvez tenha sido este o maior prêmio de sua dadivosa vida de repórter.

 
 

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