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Opinião29/08/2016 | 06h25Atualizada em 29/08/2016 | 06h25

Envelhecer

"Não sabermos envelhecer parece estar vinculado a um certo desejo de eternidade"

Envelhecer Divulgação/Agência RBS
Foto: Divulgação / Agência RBS
Hugo Antonio Fontana

hugofontanap@yahoo.com.br

Mesmo que a longevidade tenha aumentado, a tendência de achar que os outros estão mais velhos do que nós permanece a mesma que no tempo da minha mãe. Cara, andar e jeito de velho só os outros têm. "Como a fulana está velha" era comentário frequente entre as velhas primas da minha mãe. Esqueciam que a fulana tinha a mesma idade delas. Isso significa, salvo honrosas exceções, intensidades variadas de rugas, artrites, reumatismos e outros afrescos que o tempo presenteia a todos.

Não sabermos envelhecer parece estar vinculado a um certo desejo de eternidade. Tal qual Sibila de Cumus (figura mítica), se viver tanto fosse possível, isso não resultaria em profunda melancolia? Essa pergunta, não estranhe, emerge de um certo receio que possuo daquilo que Karnal (Leandro Karnal, historiador) chama de "liberdade mais radical", que é a liberdade da eternidade. Para nossa felicidade, nós não temos essa liberdade. Nossa "eternidade" acaba quando termina a juventude.

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Só para lembrar: Sibila tinha como seu protetor o deus Apolo, e a ele pediu para ser eterna. Esqueceu de pedir para continuar jovem. Próxima a ter mil anos, Sibila apodrecia de tão velha. Sua única alternativa, então, foi pedir para morrer. A eternidade que Apolo havia lhe reservado não possuía a menor graça.

Os cremes, os cuidados, as visitas periódicas a médicos, a atividade física não significam, necessariamente, o desejo de alguma eternidade. Podem significar o desejo de se ter uma velhice de melhor qualidade. Engordar, "enrugar", escassear os cabelos podem não nos tornar meros coadjuvantes cujo destino comum é a morte. Contrário senso, a morte pode ser um episódio significativo na busca por aquilo que se convencionou chamar de felicidade. Sem a morte, do mesmo jeito que Sibila, seríamos todos depressivos. Teria razão o grande Oscar Niemayer quando dizia, do alto do seu mais de um século de vida, que a "velhice é uma merda"? 

 
 

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