Cronistas do Diário: Zahra Nemati, por Marcelo Canellas - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião06/08/2016 | 07h03Atualizada em 06/08/2016 | 15h45

Cronistas do Diário: Zahra Nemati, por Marcelo Canellas

Cronistas do Diário: Zahra Nemati, por Marcelo Canellas Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução

Mal encontrei Zahra Nemati, no campo de treino de tiro com arco do Sambódromo, e já cometi minha primeira gafe: estendi a mão para cumprimenta-la.  

–  Sorry  – ela disse, mantendo as mãos entrelaçadas sobre o colo, sorrindo e me cumprimentando à distância, com a cabeça pendida. Já tinham me alertado que não se pode cumprimentar as atletas do Irã tocando nelas. Mas, distraído, esqueci. Ainda que séria e discreta, com seu recato de mulher muçulmana, Zahra é alegre e descontraída, e fez piada de minha atrapalhação, puxando assunto sobre as diferenças culturais entre ocidente e oriente.

Foto: Getty Images / Divulgação

Eu tinha apenas 20 minutos para entrevista-la, condição inegociável imposta por seu treinador, e fui direto ao assunto. Que lembranças ela traria daquele dia terrível em que perdeu o movimento das pernas? Zahra diz que, quando o carro rodou, sentiu girar dentro dela a vertigem incômoda de uma desgraça. Faixa preta de taekwondo, campeã iraniana desse esporte, teve a medula partida no acidente e perdeu o movimento das duas pernas.

_ Eu amava as minhas pernas. E era capaz de realizar técnicas extraordinárias, que ninguém em meu país conseguia fazer. Achei que tinha acabado, que nunca mais praticaria nenhum outro esporte em minha vida.

O acidente foi em 2004. Zahra tinha 19 anos. Ficou deprimida durante dois anos. Mas, em 2006, algo se passou dentro dela. Procurou um clube chamado Tarasht, na cidade de Kerman, onde nasceu, e passou a treinar tiro com arco. Surpreendentemente, a fantástica destreza que tinha com as pernas parecia ter migrado para as mãos. Seis anos depois, em 2012, estava representando o Irã na Paralimpíada de Londres. Ganhou uma medalha de ouro individual e uma de bronze por equipe, e fazendo história ao se converter na primeira mulher iraniana a vencer uma competição olímpica ou paralímpica.

Foto: Getty Images / Divulgação

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No ano passado, ficou em segundo lugar no campeonato asiático de tiro com arco, o que lhe deu índice para, além da Paralimpíada, ir também para a Olimpíada. É a única mulher a participar simultaneamente das duas competições. Porta-bandeira do Irã na festa de abertura, no Maracanã, Zahra é favorita à medalha de ouro paralímpica. Na olimpíada, a concorrência será muito maior. Não importa. Fico com a última frase que ela me disse, antes que eu fosse retirado pela segurança: ¿a medalha de ouro importa menos do que minha mentalidade de campeã. Gostaria que todos os que se sentem desafiados por problemas enxergassem em mim esperança e inspiração¿.

 

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