Cronistas do Diário: Invenção da permanência, por Orlando Fonseca - Cultura e Lazer - Diário

Versão mobile

Opinião02/08/2016 | 07h05Atualizada em 02/08/2016 | 07h05

Cronistas do Diário: Invenção da permanência, por Orlando Fonseca

Cronistas do Diário: Invenção da permanência, por Orlando Fonseca Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução

Em tempos de valorização da juventude e receios de chegar à velhice, chamou-me atenção uma matéria sobre a primeira miss universo brasileira, Ieda Maria Vargas. Aos 72 anos, sem cirurgias plásticas, continua bela. Considera uma honra envelhecer, e a sabedoria disso vem de ¿respeitar a passagem do tempo¿. Pode até ser natural a preocupação com a velhice, e não com a morte – o fim de tudo, inexorável e misterioso.

O passar do tempo significa distanciar-se da infância e da adolescência, encarar a chegada ao terceiro turno, virar um caco. Não são as rugas e dores que incomodam, mas deixar de ser o que já passou.

E isso é o que acho estranho: tem gente que se refere a sua vida pregressa dizendo ¿no meu tempo¿, ignorando a quadra atual, como se fosse uma temporada emprestada. O segredo está em entender as mudanças, não estranhar a novidade de cada dia. A vida, segundo a poeta Cecília Meireles, só é possível reinventada. Por isso, entendo a vida em seu curso normal, como Paulinho da Viola: ¿meu tempo é hoje¿. Ou como diz a mulher que teve a distinção da beleza universal: ¿Eu ainda sou a mesma Ieda¿. No poema Poética, Vinícius de Morais comenta o tempo enunciando subversões sobre o viver, o morrer e um provável renascer: ¿meu tempo é quando¿.

Mas é comum nas redes sociais aquele tipo de post: ¿Você está ficando velho¿ se conseguir identificar uma sequência de objetos, livros, artistas e programas de TV do passado. Porém, é uma constatação óbvia: não fazemos outra coisa senão envelhecermos a cada momento. Só um bebê não se dá conta de que, no segundo dia de vida, já tem o dobro da idade. Bem, pode ser para não se falar no medo da morte, mas, aí, estaríamos tratando do desconhecido. ¿Seja eterno, morra jovem¿ era o lema dos roqueiros românticos, resgatando o mal do século 19. No pós-guerra, já no século 20, auge da Guerra Fria, a juventude queria viver intensamente por não ver perspectivas em um mundo dividido em blocos antagônicos.

Entretanto, o passado, a nossa história, é o que nos pertence e nos identifica. A sabedoria popular fala que ¿o futuro a Deus pertence¿, porque, em verdade, não nos pertence. É irrelevante considerar que estamos ficando velhos, pois o acúmulo deve servir para nos fazer mais humanos. Belchior, na canção em que recupera a imagem do corvo de Poe, crocitando ¿never more¿, sugere-nos que é preciso ¿rejuvenescer¿. Creio ser esse o segredo da vida em seu embate contra a morte, mesmo que uma ilusão: quando renovamos o espírito inventamos a permanência.

 

Comentar esta matéria Comentários (0)

Esta matéria ainda não possui comentários

Siga Diário SM no Twitter

  • diariosm

    diariosm

    DiárioSMHusm e Hospital de Caridade são condenados por negligência https://t.co/8jThoUgtXX https://t.co/yIPd653L91há 9 horas Retweet
  • diariosm

    diariosm

    DiárioSMSete dos oito prefeituráveis assinam compromisso junto à Comissão de Combate à Corrupção https://t.co/yhlFe2ad2R https://t.co/MaefbrF1Cbhá 9 horas Retweet

Veja também

Diário de Santa Maria
Busca
clicRBS
Nova busca - outros