Cronistas do Diário: Flor do Lácio , por Orlando Fonseca - Cultura e Lazer - Diário

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Crônica09/08/2016 | 06h20Atualizada em 09/08/2016 | 06h20

Cronistas do Diário: Flor do Lácio , por Orlando Fonseca


Foto: Reprodução / Reprodução

Há quem goste, há quem torça o nariz ou se mostre indiferente. Caetano Veloso confessa: ¿Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões¿. Na mesma letra da canção, o cantor baiano se refere ao Pessoa, ao Rosa e ao Chico, na intimidade de quem compartilha a arte de elevar a língua portuguesa. Ou não. Trata-se de caetanear a ambiência que o poeta português chama de pátria, portanto, lugar em que é possível ¿criar confusões de prosódias¿, onde se misturou ao caldo latino-americano o ¿latim em pó¿. Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, ou quem não entendeu bulhufas, e anda por aí a confundir alhos com bugalhos e a proclamar-se legítimo dono, guardião, fiscal das formas escorreitas do vernáculo pátrio.

O acervo de uma língua é domínio da comunidade que o usa para se comunicar, viver, identificar-se. Oral, por natureza, adquire-se naturalmente na infância e não se perde mais, integrada ao que cada indivíduo entende por ser. Dinâmica, tal língua se transforma ao longo do tempo pelo uso e pelas novidades que aportam o território. A forma escrita demora um pouco mais para assimilar. Por isso, as mudanças, pelo fato de se consolidarem ao longo do tempo, muitas vezes não são perceptíveis pelos falantes atuais, que, em alguns casos, consideram erro ou desajuste. Ainda que seja necessário ensinar os falantes a respeito do uso eficaz da língua, não significa que o recorte temporal feito para esse fim seja a lei a respeito do seu uso. O estudo é que precisa evoluir e adaptar-se.

Embora tal comunidade possa ser estratificada, o que significa existirem alguns com maior acervo, com maiores capacidades expressivas – por razões diversas, como maior tempo de estudo, maior desenvoltura no raciocínio, perspectivas de existência mais amplas –, nada indica que são esses os que detêm o selo de propriedade da língua. O certo e o errado – relativos – até podem se tornar uma disputa ideológica, mas o uso e o tempo é que dirão o que se tornará definitivo. Acordos ortográficos e disputas acadêmicas não conseguirão colocar outro Atlântico entre o Pindorama e a Península Ibérica.

A ¿última flor do Lácio¿, segundo o poeta parnasiano Olavo Bilac, já era inculta e bela no século 19, ou seja, muito antes da era cibernética, de tuítes, feicebuques, zap-zaps e seus 140 caracteres. Dois dedos de prosa, hoje, compreendem tão somente dois polegares. Não deve ter-se tornado culta, mas ainda é bela. Já que comecei com Caetano, termino com ele: ¿E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate¿.

 

 
 

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