Adriana Calcanhotto ganha livro que reúne os versos de mais de 90 de suas canções - Cultura e Lazer - Diário

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Dá a letra09/08/2016 | 05h01Atualizada em 09/08/2016 | 05h02

Adriana Calcanhotto ganha livro que reúne os versos de mais de 90 de suas canções

Obra "Pra que é que serve uma canção como essa?" é organizada pelo poeta e crítico Eucanaã Ferraz e foi lançada no Rio de Janeiro

Adriana Calcanhotto ganha livro que reúne os versos de mais de 90 de suas canções Leo Aversa/Divulgação
A gaúcha Adriana Cacanhotto e o poeta, crítico e amigo Eucanaã Ferraz, organizador do livro Foto: Leo Aversa / Divulgação

O trabalho de Adriana Calcanhotto sempre flertou com outras expressões, como a literatura, as artes visuais e o teatro. Influência central na obra da cantora e compositora, a poesia é o norte de Pra que é que serve uma canção como essa?, livro organizado pelo poeta e crítico Eucanaã Ferraz somente com letras da artista gaúcha. Publicado pela editora Bazar do Tempo, o volume foi lançado na semana passada no Rio de Janeiro, em uma concorrida sessão de autógrafos na livraria Argumento, que contou com as presenças de nomes como Erasmo Carlos, Thaís Gulin, Teresa Cristina, Roberta Sá e Antonio Cícero, que se revezaram em canjas musicais (não há previsão de sessão de autógrafos no Estado). São 91 letras, sendo que 18 inéditas, compiladas por Eucanaã e revisadas por Adriana, em um projeto acalentado há mais de cinco anos pela editora Ana Cecilia Martins.

— Eu não queria fazer esse livro de jeito nenhum. Fui negociando tempo então com a Ana: primeiro organizei uma antologia de poemas para crianças (chamada Antologia ilustrada da poesia brasileira), depois uma de haicais (batizada de Haicai do Brasil). Tenho muitas parcerias, mas letras só minhas não são muito mais do que essas reunidas. Vi que tinha coisas inéditas, antigas e novas, e resolvi fechar essas músicas, finalizar essas letras. Acho que o livro encerra um ciclo e começa outro na minha vida — explicou Adriana falando ao telefone com Zero Hora, lembrando que há pouco mais de duas semanas perdeu o pai, o baterista Carlos Calcanhoto, a quem ela se referia como "Partimpai".

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Eucanaã dividiu o trabalho em cinco seções, nas quais agrupou as letras por temas e em ordem cronológica: Você (letras de temática amorosa, principal tópico das canções de Adriana), Agora (palavra constante nas letras da artista, congregando canções sobre o momento presente), Onde (destaque para a presença de lugares, paisagens, cidades), Olhar (aqui os versos giram à roda de pessoas e coisas, como se as canções observassem o mundo) e Verso (o tema é a própria canção, ou a palavra, o verso).

— Esse tipo de livro é equivocado por princípio, porque a canção é uma coisa única, letra e música. É como desmembrar corpo e espírito. Ao mesmo tempo, a Adriana é uma autora muito próxima da poesia, da palavra escrita. Meu olhar foi ver quais as letras que suportavam estar no papel sem melodia — sintetizou Eucanaã também conversando com ZH.

No prefácio de Pra que é que serve..., o organizador traça uma minuciosa exegese da obra da amiga, identificando a variada gama de referências artísticas e culturais que informaram uma trajetória singular na música brasileira. Eucanaã destaca em especial o que define como um pendor pelo paradoxal, um movimento pendular de Adriana que vai do minimalismo ao excesso — às vezes, em uma mesma canção. Em mais de 10 discos autorais e projetos que incluem performances poético-musicais e discos para o público infantil sob o heterônimo de Adriana Partimpim, a criadora avançaria por um caminho que acolhe tanto a contenção da bossa nova quanto o transbordamento do tropicalismo, o cerebralismo da poesia concreta e o romantismo ingênuo da jovem guarda, Augusto de Campos e Claudinho & Buchecha. Um deleite com a contradição explicitado em canções como Minha música (leia a letra abaixo) e Esquadros — dos versos "Transito entre dois lados de um lado / Eu gosto de opostos".

A ligação da porto-alegrense Adriana com o Sul está na frente e no verso da publicação: a capa estampa uma foto da intérprete olhando a paisagem a partir de uma janela da Fundação Iberê Camargo, enquanto a contracapa reproduz um retrato dela pintado pelo próprio Iberê Camargo.

— O prédio da fundação abre para uma visão que a gente não tinha em Porto Alegre antes. A foto ilustra o que o Eucanaã escreve sobre eu sempre procurar enquadrar as coisas. Já o retrato é um díptico de 1991. O Iberê disse que pintou meu corpo e minha alma, e no livro está o quadro que seria a minha alma. Dediquei a música Tons para ele no meu segundo disco (Senhas, de 1992) — lembrou Adriana.

"MINHA MÚSICA"

"Minha música não quer ser útil
Não quer ser moda
Não quer estar certa

Minha música não quer ser bela
Não quer ser má
Minha música não quer nascer pronta

Minha música não quer redimir mágoas
Nem dividir águas
Não quer traduzir
Não quer protestar

Minha música não quer me pertencer
Não quer ser sucesso
Não quer ser reflexo
Não quer revelar nada

Minha música não quer ser sujeito
Não quer ser história
Não quer ser resposta
Não quer perguntar

Minha música quer estar além do gosto
Não quer ter rosto, não quer ser cultura
Minha música quer ser de categoria nenhuma
Minha música quer só ser música

Minha música não quer pouco"

PRA QUE É QUE SERVE UMA CANÇÃO COMO ESSA?
Livro com seleção de 91 letras de Adriana Calcanhotto organizado por Eucanaã Ferraz. Editora Bazar do Tempo, 192 páginas, R$ 48.

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