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Cronistas do Diário19/04/2016 | 06h01

Encanamentos

Encanamentos  Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução
ORLANDO FONSECA

ofonseca2014@gmail.com

Vazamentos viraram moda na política brasileira, e a Operação Lava-Jato contribuiu muito para essa impressão. Fala-se em lucro líquido da ação policial, mas quero crer que os furos são mais embaixo. Não se trata de um simples problema hidráulico, ainda que muita água poluída role por debaixo da ponte (já tem até ponte para o futuro), a questão é de encanamentos. Ou seja, de uma forma ou de outra, a patuleia – nós, os 99% do povo brasileiro – vai entrar pelo cano. Enquanto isso, para o 1%, vai continuar a farra em enormes propinodutos, com adutoras ainda mais sofisticadas. Nem Bauman previu uma modernidade tão líquida para uma democracia tão jovem como a nossa.

Não sei em que águas a operação Mãos Limpas italiana foi buscar o elemento essencial da limpeza. Mas, por aqui, ao que tudo indica a antiga sabedoria popular, foram buscar no Itororó e não acharam. Aliás, se quisessem buscar na transposição do São Francisco ou no sistema Cantareira, só achariam do volume morto, e muitos (ir)responsáveis se fazendo de morto. No Rio Doce, nem pensar, suas correntes ficaram amargas, o rio virou emblema das incúrias administrativas e jurídicas: verdadeiro mar de lama. A bem da verdade, a operação de limpeza na Itália deu no Sílvio Berlusconi, convenhamos, não é um bom gabarito. É preciso recuperar a fonte de água limpa, inodora e potável.

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A rede de intrigas em que se transformou a circulação de informações também precisa de novo encanamento. O que se vê são agentes públicos, jornalistas e colunistas lavando a roupa suja com a água que sai direto do esgoto. E a coleta não é seletiva, mas o vazamento é. Vai daí que a água parada por tantos anos nas gavetas do MPF, por conveniência, não deu só mosquito, alimentou ratazanas, e deixou à solta uma manada de outros especialistas em rapina. Mas a limpeza com a água limpa não pode se dar na operação colaborativa, em que “uma mão molha a outra”. Lavagem de dinheiro é uma ironia, como se tudo fosse um ato asséptico. Com esse tipo de lavanderia, só o que vai ficar limpo é o cofre do Tesouro.

Novas tubulações ainda terão de esperar turbulências. O saneamento básico que está a exigir a claudicante República precisa de um poderoso encanamento para dar conta de levar toda a uruca com uma descarga. Se bem que eu acho um banho de descarrego mais apropriado. Uma coisa é certa, do Oiapoque ao Chuí, passando por todos os cursos d’água, é preciso limpar a coisa pública, porque o fedor da privada já tomou conta de tudo (que o diga o juiz de Curitiba).

DIÁRIO DE SANTA MARIA

 

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