É importante esperar na estação - Cultura e Lazer - Diário

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Cronistas do Diário15/04/2016 | 06h06

É importante esperar na estação

É importante esperar na estação Arte DSM/
Foto: Arte DSM

Sou dessas pessoas que ficam fazendo coisas enquanto mantêm a televisão ligada. Uso isso como tática de distração, uma forma de abafar o vozerio que me habita e cobra respostas, ou o passado, presente e futuro que me azucrinam com arrependimentos, contingências e antecipações. Minha companhia, numa manhã dessas, foi o filme Dois Lados do Amor (The disappearance of Eleanor Rigby: Them), e na fala do personagem de William Hurt, mudei os rumos do meu pensamento naquele dia: "A tragédia é uma terra estrangeira, onde não se consegue falar com os nativos", recitou ele. Suspendi as atividades terrenas para dar tempo a minha alma de inspirar aquela verdade, tão brilhantemente colocada; e pela alma, eu a sorvi, com o mesmo prazer sutilizado, a que nos remete um frescor de penumbra com aroma de bom incenso.

De todas as suas faces, talvez seja a tragédia pessoal a que mais nos constrange. O que se faz diante do sofrimento escancarado de alguém? O corpo ainda expõe-se, trata-se, cura-se, mas temos pouca habilidade para lidar com as aflições de dentro. Tomamos, então, ciência dos nossos abraços desajeitados, do semblante inadequado, da ineficiência das palavras; nessas horas, até gente letrada emudece, anfitriões descolados não sabem onde colocar as mãos. Quem muito matuta arruma desculpa: "não gosto de hospital", "não vou a enterros", "prefiro não ver". Ninguém gosta, ninguém quer, ninguém sabe! E não há nível de educação formal que nos garanta a palavra certa ou a expressão apropriada de solidariedade. Os que se poupam não se expandem, perdem a chance do polimento afetivo. Mas, na verdade, não é preciso uma palavra sequer, nem adianta, porque, nesse momento, falamos idiomas diferentes, como bem me lembrou aquele filme.

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A mais amada das criaturas, se atingida pela dor, está só, porque a dor é pessoal e intransferível. Mas observem as pessoas simples de coração; em momentos dolorosos, se lhes falta o lustro das frases de praxe, elas se dão. Cuidam das coisas práticas, doam companhia. E se as palavras são inúteis, se as tragédias alienam, ao fim, é só isso que temos a dar aos nossos afetos – companhia. É possível que, durante um grande sofrimento, parte da gente seja catapultada, por tempo indeterminado, para a tal terra-estrangeira-cujo-idioma-não-se-entende, que nos joga na solidão acompanhada; mas, como o ser humano atua em muitas dimensões, outra parte permanece ligada ao cotidiano, aos acontecimentos e à vida. E é nessa dimensão que percebemos os que estão a nossa volta, seus esforços para amenizar a dor, seus olhares pungentes e seu carinho. Por mais longa e solitária que seja a viagem, é bom sentir que tem gente esperando na estação.

DIÁRIO DE SANTA MARIA

 

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