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Lenda do rock29/11/2014 | 07h02

A história de Pylla, um icônico rockeiro

Revista MIX aborda a trajetória de Pylla Kroth, contada por amigos, colegas e por ele próprio

A história de Pylla, um icônico rockeiro  Claudio Vaz/Agência RBS
Foto: Claudio Vaz / Agência RBS

A habilidade em produzir lettering (projetar e desenhar letras) trouxe Edson Luiz Kroth a Santa Maria. Foi em 1981, para trabalhar no jornal A Razão, que a cidade recebeu aquele que viria a ser conhecido como Pylla. Depois disso, uma das lendas do rock santa-mariense começou a se desenhar.

Um dos precursores da cena rockeira de Santa Maria, Pylla passou das três décadas de carreira seguindo incansavelmente o caminho da música. Ele é um dos poucos sobreviventes da época "Seattle do Sul" (termo que se refere à cidade americana que, longe das capitais, formou uma cena musical forte na década de 90) que continua na ativa por aqui. Mesmo cantando para novas gerações, ainda é ovacionado. Na última Feijoada do Diário, foi aplaudido em pé, e as recentes apresentações no Lincoln Pub deixaram a casa lotada.

Com a peculiaridade característica de um roqueiro cabeludo sem medo de rótulos, ele foi um dos músicos que gravaram o vídeo Happy (parceria entre Atlântida Centro-RS e Unifra), uma música bem diferente do seu estilo. No vídeo, aparece dançando no coreto da Praça Saldanha Marinho — bem ao jeito Pylla de ser.

A vida do ex-vocalista da Fuga é cheia de mitos e lendas que correm soltas pelas bocas santa-marienses. Mas fato é que a vida do músico é rodeada de mitos.

Sobrevivente de sua própria história (o cantor ganhou uma segunda chance, após uma experiência de quase morte em 2002), Pylla abriu as portas da casa e, na companhia do sobrinho, Léo Mayer, conversou sobre a trajetória na música, o susto com a doença e o recomeço da vida.

Como tudo começou



Foi em Marau que nasceu Edson Luiz Kroth, mas foi a cidade de Tapera — onde moram sua mãe e as cinco irmãs — que conheceu a infância e adolescência de Pylla. O apelido vem de "empilar", jeito que as irmãs do músico diziam a palavra "empinar", brincadeira que acalmava o mano, quando criança.

É foi na infância que a música ganhou espaço na sua vida.

— Minha mãe cantava lavando roupa, ouvindo cantores de rádio, como Dalva de Oliveira (sua xará), Francisco Alves, Lupicínio Rodrigues. Aprendi a cantar com a mãe. Fui coroinha. Morava a uma quadra do seminário. Cantava desde criança — relembra.

Um violão, que adquiriu em 1977, relíquia que guarda daquele tempo, está exposto na sala até hoje. Mas a iniciação no rock pesado só rolou em Santa Maria, na década de 80.

Pylla lembra que, ao vir para a cidade, morou em uma república com estudantes de várias partes do mundo. Ali conviveu não só com estudantes brasileiros, mas também chilenos e uruguaios. Nessa época, foi apresentado a músicos como Celso Streit e Clovis Muller, que já faziam som na cidade. Era no Zanzi Bar — um casarão que ficava na Rua Tuiuti — a maior parte dos encontros musicais, já que, à época, não havia locais para apresentações de bandas.

— Eu tocava ali, o Pylla ia assistir e eu o chamava para o palco.Tenho por ele admiração pela batalha, de colocar a cara e vestir a personalidade de um artista, que é uma coisa difícil — comenta Streit.

Pelas bandas do Sul





A história de Pylla se confunde com a das bandas pelas quais ele passou nestas três décadas, e vice-versa. Em 1986, passou a fazer parte da Thanos, surgida em 1984, e que tinha entre os integrantes Gonçalo Coelho, Rafael Ritzel e Côco Fighera. Com a banda, a primeira do gênero heavy metal surgida em Santa Maria, reuniu mais de 3 mil pessoas no primeiro show, no Avenida Tênis Clube. Mais tarde, a banda chegou a lançar uma fita cassete com as músicas de trabalho.

Pylla também fez parte da Bruxa, outra precursora do rock na cidade. Mas foi em 1988 que nasceu a banda que levou a gurizada da Boca do Monte a ser conhecida no Estado, fazendo turnês pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

— Juntamos pessoas das bandas Banana Explícita, Bruxa e Thanos. Aí que surgiu uma reunião que a gente chamou de Fuga: cada um fugiu do que estava fazendo, das suas bandas, para criar esse novo som — explica Pylla.

Junto com Gonçalo, Rafael Ritzel e os irmãos José e Luiz Cacciari, formou-se a banda que deixou uma marca histórica na carreira de Pylla e dos demais integrantes. Foram dois LPs lançados, Fuga (1990) e Crime ao Vivo (1993). Só o primeiro disco, segundo o cantor, rendeu shows em 172 cidades. Além disso, a Fuga ganhou projeção estadual como representante de Santa Maria no programa Sul em Canto, com a exibição de um videoclipe dirigido por Sérgio Assis Brasil. Também foi bicampeã do Circuito de Rock, promovido na época pela RBS TV.

No segundo LP, surgiu o hit mais conhecido da banda, que 20 anos depois continua sendo tocado em bares do Estado e até país afora: Saudade. Na época do lançamento da canção, shows em locais públicos, como o Calçadão e a Praça da Locomotiva, eram frequentes. Os shows reuniam mais de 5 mil pessoas em shows memoráveis, ao ar livre. Talvez por isso, a canção tenha ficado tão popular quanto o artista.

A Fuga acabou em 1996, mas Pylla continuou na ativa com a 220 Volts e a Banda Chá. Em 2005, se envolveu em trabalho solo, e gravou dois CDs: Bruxos Rosa e Pylla Canta 25 Anos de Rock Santa Maria, junto da Carbono 14 (C14), com a qual continua.

Pylla conta: O nome da banda Carbono 14 faz referência ao elemento usado para se descobrir a idade dos fósseis (o músico é considerado o "Dinossauro do Rock de Santa Maria"). Mas há outra coincidência. Segundo o músico, no período em que ele ficou hospitalizado, estava no bloco C, cama 14. Coincidência ou lenda, a história vem da boca de Pylla.

No meio do caminho, "Saudade"

Se há uma canção que serve como um hino de lembrança da década de 90 em Santa Maria e da banda Fuga, ela tem nome: Saudade, composta por Rafael Ritzel em 1989, e lançada em 1993. A música faz parte do disco Crime ao Vivo e ainda é tocada (e cantada a plenos pulmões) em bares pelo Rio Grande do Sul e pelo Brasil afora.

Rafael conta que a letra da música, uma canção de amor, foi composta quando ele tinha apenas 17 anos e ficou pronta em menos de uma hora.

— Eu não tinha coragem de mostrar para ninguém. Fui direto na casa dele, a gente ensaiou. Eu nunca tinha feito letras. Saudade foi minha primeira letra e a pessoa que escolhi para mostrar foi o Pylla. A música foi uma forma de parar de sofrer num momento de extremo sofrimento. Mas o mais louco é que a musica ficou pronta em 40 minutos — relembra Rafael.

— O Rafa foi ao meu apartamento e disse que gostaria que eu a interpretasse. Coloquei o arranjo vocal e ele foi aperfeiçoando com o violão — lembra o cantor.

Para Pylla, que continua interpretando a música nos seus shows, executá-la tem uma magia especial:

— Essa música traduz tanto para as pessoas... Ela já foi executada em casamentos e enterros, foi lembrada pelo reitor na tragédia da boate Kiss. Eu fico emocionado quando falo em Saudade. Não lembro de tê-la cantado sem vontade. É uma magia, tal qual Let It Be deveria ser para os Beatles, ou como Blowing in The Wind para o Bob Dylan.

Pylla conta: Saudade quase fez parte da trilha sonora de uma novela da Rede Globo, na época do lançamento. Segundo ele, a canção não foi aproveitada porque a produção procurava uma banda que já tivesse gravadora, que não fosse independente e que, de preferência, fosse de uma Capital. Porém, há quem diga que esse convite não chegou a acontecer.

Briga com Lobão

Das histórias do rock guardadas na memória das bandas e de Pylla, uma delas bem poderia estar estampada em uma revista rockeira. Segundo o próprio, ela envolve uma pequena desavença com o músico Lobão, na ocasião de um show dele em Santa Maria.

— Eu deveria ter dado um soco nele, o Heron (Domingues, na época produtor da banda) não deixou eu dar. Eu ia ser "o" cara... — comenta Pylla.

Segundo o cantor, o lance foi o seguinte: o show era no Ginásio do Centenário. Lá, Lobão lançaria seu trabalho, com show de abertura da Fuga. Lobão teria pego "aversão ao rock pesado" depois de um show na segunda edição do Rock in Rio. Ele se apresentou na noite do Heavy Metal e público não foi lá muito receptivo: vaiou, jogou copos plásticos e moedas no palco. Em Santa Maria, ele teria liberado "a mágoa" com os guris da Fuga. Pylla explica:

— A Fuga entrou no palco, e tocamos alguns clássicos de metaleiro. Quando ele ouviu a galera indo ao delírio e a gente interpretando Metallica, resolveu subir no palco e pedir para o cara cortar o som. Quando eu virei para trás, estava o Lobão, de braços cruzados, e dizendo: "Acabou, acabou!". Nós tínhamos tocado apenas três músicas. Eu parei de tocar, virei de costas e fui para cima dele: "Que tu tá pensando que tu é, cara?". Quando me agarrei nele, chegou a turma do deixa disso, e eu perdi a oportunidade de sair na Bizz (extinta revista sobre música). Seria uma briga bacana.

Beijando a lona: hora do blues

Das 50 composições no set list de Pylla, apenas uma é um blues.

— Dizem que o homem só compõe um blues quando beija a lona, quando realmente vai a nocaute. É o momento mais triste na vida de um homem — diz ele.

Brisa Brasa Blue chegou justamente no momento em que Pylla passou por sérios problemas de saúde. Em 2002, ele chegou a ficar mais de 30 dias em coma e beirou a morte. A situação foi resultado de uma rotina frenética de shows, noites maldormidas e uso abusivo de drogas e álcool:

— Meu corpo cobrou. Meu fígado cobrou, a parte hepática cobrou e o cansaço bateu. E aí, fui à lona mesmo, a ponto de entrar em coma. Costumo dizer que eu não conhecia a terceira dimensão, só nas drogas. Mas, dessa vez, eu tive certeza que a gente não é daqui, a gente está aqui por um objetivo. Nesse momento, eu ajoelhei, e pedi a compreensão do mundo.

Pylla sofreu várias paradas cardíacas, precisou passar por cirurgias no esôfago e na traqueia. Hoje, tem três veias transplantadas e uma cicatriz enorme no tórax.

— Eu tinha menos de 1% de possibilidade de sobreviver. Minha irmã se despediu do meu corpo, ganhei a extrema-unção do padre, no cemitério estava tudo planejado. Passei por uma cirurgia de 13 horas. Esse foi o momento em que eu parei e pensei: "Deve ter um motivo pelo qual a gente está aqui".

O tripé mudou

Anos mais tarde, já recuperado Pylla voltou à cidade onde viveu sua infância para fazer um show em praça pública e agradecer a 140 doadores de sangue pela sua recuperação.

— O rock cometeu um erro quando se calcou no tripé sexo, drogas e rock and roll. Hoje, existe amor, vida saudável e rock and roll. Quando a gente tem 20 e poucos anos, acha que nada vai nos abalar. Estava tudo tão bom, a gente ganhava dinheiro, via que podia sobreviver com isso. Tínhamos uma vida muito intensa. Em um fim de semana fazíamos shows no Estado, em Santa Catarina e em uma pontinha do Paraná. Foi esse mundo, de intensidade, que me cobrou e me jogou na lona — reflete o músico.

O renascimento





Recuperado e com uma segunda chance para a vida, Pylla optou por uma rotina mais leve. Depois do tombo e do susto que levou em função dos abusos de substâncias, o cantor precisou rever muitos hábitos. Fácil, não foi: ele precisou passar por mais de sete clínicas de reabilitação para se livrar do alcoolismo e da dependência química.

Hoje, garante estar livre desses males. Além disso, Pylla não abre mão de suas oito horas diárias de sono, de uma boa alimentação e de hábitos mais saudáveis. Para a turma toda, o veterano faz uma recomendação:

— Eu peço cuidado: reformulem suas vidas. Façam rock, sim, mas é bom parar e pensar um pouquinho. Inúmeras bandas não tomam nenhuma gota de álcool para fazer o espetáculo e têm aquela coisa boa e espiritual para transmitir. Na verdade, você pode fazer tudo. Nem tudo faz bem. Mas a escolha é você quem faz.

Há 10 anos, Pylla divide a casa com a mulher, a artista plástica Franciele Cullau, o cão de estimação, Getty Lee (referência ao baixista e tecladista do Rush) e oito gatos. Várias referências a bandas como Led Zeppelin e Rush, cobrem as paredes, mas a maior excentricidade é uma piscina, construída dentro da casa.

Disco novo

Pylla lançou recentemente um novo disco, Cyclus, que se refere aos momentos em que a vida é dividida em três: manhã, tarde e noite; nascer, crescer e envelhecer. Ele conta que, hoje, não dispensa um bom cachê para tocar, e, se for viajar, exige um bom hotel. A frequência dos shows diminuiu, mas de uma coisa ele tem certeza:

— Eu preciso estar em cima do palco. Se puder pedir uma coisa, que Deus não me tire isso. Como diz Noel Guarani: se eu nasci para ser cantor, eu hei de morrer cantando.

O herdeiro do som





Há pelo menos sete anos, Pylla convive diariamente com uma pessoa que ele gosta de chamar de "sua evolução". O sobrinho, Leo Mayer, 19 anos, é um dos atuais companheiros de banda do músico e praticamente um filho adotivo. Ainda menino, aos 12, Leo veio a Santa Maria para morar com o tio, e hoje toca ao lado dele.

Leo serviu de companhia e estímulo do tio no período em que ele se recuperava dos problemas de saúde. A ligação, embalada pors riffs de guitarra, vai além da relação familiar.

— Ele estava do meu lado no momento mais difícil da minha vida. O pai dele enlouqueceu quando eu cheguei com um violão e dei pra ele. Mas a gente está fazendo direitinho o que ele pediu. Eu prometi que ele seria a evolução de tudo isso, que não cometeria os erros que a gente cometeu — diz Pylla.

Para Leo, a honra é poder dividir o palco com o tio, que admira como a um rockstar.

— Às vezes, eu não consigo distinguir a visão de colega de banda com a visão do tio. Quando a gente está no palco, tocando, penso: "Olha, que massa, meu tio é o Pylla, e eu estou aqui, tocando junto com ele" — conta.

O guri também é uma das apostas da cena rockeira. Hoje, Leo, além de tocar, produz cerca de 30 bandas santa-marienses. Tudo, segundo ele, graças à ajuda do tio e da confiança nele.

— Ele foi essencial no meu aprendizado, em toda a minha evolução, desde o primeiro acorde até o último — afirma.

Na parceria e na amizade

Na coleção das três décadas de carreira, Pylla soma 50 composições próprias, dois vinis gravados com a Fuga, além de três CDS e um DVD com a Pylla Carbono 14.

Com o passar dos anos, a coleção de Pylla não enumera só discos e canções. As amizades também fazem parte de uma relíquia na prateleira. Saiba o que algumas pessoas que conviveram com o dinossauro do rock dizem sobre ele.

"O Pylla é essa figuraça, antes de ser músico. É uma figura folclórica, se transformou no mito do Rio Grande do Sul, não só pela Fuga e pela Thanos, mas também pelo que fez depois disso. Quando a banda acabou, a gente estava em um momento delicado, de decadência do rock, e foi nesse momento que entrou o Pylla guerreiro. Que continuou cantando, que lutou para levar o nome da banda. Devo muito a ele por ter mantido viva essa fama, não só de Saudade, mas que continuou tocando as músicas da Fuga. Ele é um vitorioso. Lançou três discos, venceu o alcoolismo, venceu a dependência de drogas, está sempre se reciclando, se reinventando. Antes de ser músico, ele é uma pessoa que soube vencer grandes derrotas na vida dele. Contra tudo e contra todos, o Pylla renasceu, se recriou. Considero tudo o que ele fez depois vitórias não só de um músico, mas de uma pessoa que soube vencer derrotas implacáveis. Coisa de guerreiro." Rafael Ritzel, músico, ex-guitarrista da Fuga e compositor de "Saudade".

"Eu era gurizinho, e ele se diferenciava. Era um cara magro, cabeludo. Acabei me identificando. Acho que eu tinha uns 12 anos quando fui na casa do Pylla em uma festa. E pensei: quero ser assim também! O Pylla, para mim, é um guerreiro. Começa pela ideia de sair de uma cidade como Tapera, trabalhar com música, virar ícone. Ele virou o ícone do rock na cidade que eu nasci." Alexandro Pinttoo Hoer, músico e colega na banda Fuga

"Nos conhecemos nos anos 90, no tempo da Bandaliera. Muita gente já nos confundiu pela nossa semelhança física — magro, loiro, rockeiro e cabeludo. Acho que, como eu, ele é um dos sobreviventes do rock and roll do nosso Estado e do nosso país, há tantos anos batalhando em um país infestado de outros estilos musicais." Alemão Ronaldo, músico

"Em 1985, a gente se reunia no Zanzi Bar e eu tocava ali. O Pylla ia assistir, e eu o chamava para subir no palco e fazer uma canja. A gente cantava junto, fazíamos temas autorais e ele cantava muito bem. Eram momentos muito mágicos. O que eu tenho com o Pylla é a admiração pela sua batalha, de colocar a cara e vestir a personalidade de um artista, que é uma coisa difícil." Celso Streit, músico

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